Uma ave cruzando a trajetória de uma aeronave pode parecer um acontecimento simples e inevitável. O problema é que, durante a decolagem ou o pouso, esse encontro ocorre em alta velocidade, com pouca altura disponível e reduzido tempo para reação.
O chamado perigo aviário representa uma ameaça conhecida desde os primeiros anos da aviação. Atualmente, a expressão mais abrangente é perigo da fauna, pois o risco não envolve apenas aves. Mamíferos, répteis e outros animais também podem invadir pistas ou interferir nas operações.
Nenhum aeródromo está completamente livre desse risco. A prevenção depende de aeroportos, pilotos, operadores aéreos, controle de tráfego, autoridades ambientais, administrações municipais e comunidades localizadas no entorno.
O que é perigo aviário?
Perigo aviário é a condição criada pela presença de aves em locais onde possam colidir com aeronaves ou interferir em suas operações.
A colisão é internacionalmente conhecida como bird strike. Quando envolve outros animais, utiliza-se a expressão wildlife strike ou colisão com fauna.
A presença de uma ave não significa, por si só, que ocorrerá uma colisão. O risco depende de diferentes elementos:
- espécie e massa do animal;
- quantidade de aves;
- comportamento gregário;
- altura e trajetória do voo;
- frequência de presença no aeródromo;
- tipo e velocidade da aeronave;
- fase da operação;
- parte da aeronave atingida.
Uma ave de maior massa normalmente apresenta potencial de dano mais elevado. Entretanto, bandos de aves menores também representam grande ameaça, especialmente quando existe possibilidade de ingestão simultânea por mais de um motor.
Por que uma ave pode causar tanto dano?
A severidade de uma colisão está relacionada à energia envolvida. De maneira simplificada, a energia cinética pode ser representada por:
Nessa relação, representa a massa e , a velocidade relativa entre a aeronave e o animal.
A velocidade aparece elevada ao quadrado. Isso significa que o aumento da velocidade exerce influência muito maior sobre a energia do impacto do que uma variação equivalente da massa.
Por essa razão, uma ave que parece pequena e frágil pode causar danos consideráveis quando atingida por uma aeronave em alta velocidade.
As fases mais críticas
O perigo da fauna pode estar presente em diferentes altitudes, principalmente durante períodos migratórios. Entretanto, a concentração de aves nas proximidades dos aeródromos torna as fases de decolagem, subida inicial, aproximação e pouso especialmente sensíveis.
Nesses momentos, a aeronave reúne condições que ampliam a exposição:
- encontra-se próxima do solo;
- opera com velocidade elevada;
- pode estar com potência significativa;
- dispõe de pouco tempo para alteração da trajetória;
- pode não possuir altura suficiente para uma avaliação prolongada;
- encontra-se em uma fase de elevada carga de trabalho na cabine.
Uma colisão durante o cruzeiro também pode ser grave, mas geralmente existe maior disponibilidade de altitude e tempo para avaliar os sistemas e planejar o pouso.
Quais partes da aeronave podem ser atingidas?
Motores
A ingestão de aves pode danificar fan, compressor e outras partes internas de motores a reação. Dependendo da massa, quantidade e ponto de entrada, pode ocorrer perda de potência, vibração ou funcionamento irregular.
Os motores são submetidos a requisitos de certificação relacionados à ingestão de aves, mas isso não significa que sejam invulneráveis. A certificação trabalha com condições e limites definidos; não pode representar todas as combinações possíveis de espécies, massas, velocidades e quantidade de animais.
Para-brisa e cabine
O impacto contra o para-brisa pode prejudicar a visibilidade e produzir danos estruturais. Em aeronaves menores, cuja resistência pode ser diferente daquela encontrada em aviões de transporte, a consequência pode ser ainda mais significativa.
Radome e sensores
O radome, instalado no nariz de muitas aeronaves, protege a antena do radar meteorológico. Uma colisão pode deformar essa estrutura e afetar o funcionamento do equipamento.
Sensores externos, antenas e tubos de Pitot também podem ser atingidos ou contaminados.
Asas e empenagem
Bordos de ataque, estabilizadores e outras superfícies podem sofrer deformações. Dependendo da intensidade e localização, o dano pode alterar o comportamento aerodinâmico ou exigir limitações operacionais.
Hélices e rotores
Em aeronaves convencionais, uma colisão pode danificar pás de hélice e produzir vibração. Helicópteros também estão expostos, especialmente quando operam em baixa altura, próximos a áreas rurais, rios, lagos ou locais de concentração de aves.
Trem de pouso e fuselagem
Animais presentes na pista podem atingir o trem de pouso, a parte inferior da fuselagem ou outros componentes durante a corrida de decolagem e o pouso.
Por que os aeroportos atraem aves?
Os aeródromos podem oferecer condições favoráveis à presença da fauna. Grandes áreas abertas, gramados, canais de drenagem, árvores, estruturas para pouso e menor circulação de pessoas criam ambientes atrativos.
O problema também pode estar fora dos limites aeroportuários. Entre os principais focos de atração estão:
- descarte inadequado de resíduos;
- lixões e aterros mal administrados;
- matadouros e instalações de processamento de alimentos;
- criação de animais;
- lavouras e armazenamento de grãos;
- áreas alagadas;
- rios, lagos e canais;
- oferta de alimento;
- vegetação inadequadamente manejada;
- acúmulo de matéria orgânica.
A Lei nº 12.725/2012 estabeleceu regras para reduzir o risco de colisões com fauna nas imediações dos aeródromos e criou a Área de Segurança Aeroportuária — ASA. Dentro dessa área, determinadas atividades de uso do solo precisam considerar seus efeitos sobre a segurança das operações aéreas. Lei nº 12.725/2012
O aeroporto pode manter suas áreas internas controladas e ainda assim enfrentar um risco elevado se o entorno oferecer alimento, água ou abrigo para grandes populações de aves.
Não basta espantar as aves
Uma resposta comum ao problema é tentar afastar os animais por meio de sons, veículos, dispositivos visuais ou presença humana.
Essas técnicas podem fazer parte do programa de controle, mas seu efeito tende a ser limitado quando o ambiente continua oferecendo alimento, abrigo ou locais de reprodução. Algumas espécies também se habituam aos estímulos quando eles são utilizados repetidamente e sem estratégia.
A defesa mais consistente é retirar ou reduzir os fatores de atração. Isso pode envolver:
- gerenciamento adequado de resíduos;
- controle da vegetação;
- correção de pontos de acúmulo de água;
- manutenção da drenagem;
- redução de locais de nidificação e pouso;
- controle de fontes de alimento;
- inspeções da área operacional;
- acompanhamento das espécies presentes;
- registro de horários, rotas e comportamentos.
A Organização da Aviação Civil Internacional recomenda que o gerenciamento seja proporcional ao risco identificado e inclua procedimentos para reduzi-lo a um nível aceitável. Programa de Gerenciamento do Perigo da Fauna — ICAO
Identificação do Perigo da Fauna
O gerenciamento eficiente começa pelo conhecimento da realidade local. Não existe uma solução única que possa ser aplicada da mesma forma em todos os aeroportos.
Cada aeródromo possui espécies, condições ambientais, movimentos migratórios e focos de atração diferentes. Por isso, é necessário identificar:
- quais espécies estão presentes;
- onde elas se concentram;
- em quais períodos aparecem;
- quais rotas costumam utilizar;
- se voam isoladamente ou em bandos;
- quais fontes de alimento e abrigo existem;
- quais espécies já estiveram envolvidas em colisões;
- qual é a severidade potencial de cada encontro.
Os requisitos brasileiros preveem, conforme a aplicabilidade, a elaboração da Identificação do Perigo da Fauna — IPF e do Programa de Gerenciamento do Risco da Fauna — PGRF. A IPF fornece a base técnica para compreender o problema; o PGRF transforma esse diagnóstico em ações de controle e acompanhamento. Gerenciamento do Risco da Fauna — ANAC
A responsabilidade do piloto
O piloto não controla o ambiente aeroportuário, mas participa ativamente das barreiras de prevenção.
Antes do voo, informações sobre atividade de aves, condições locais e eventuais avisos operacionais devem ser consideradas no planejamento. Durante o táxi e a operação, concentrações de aves precisam ser observadas e comunicadas.
Quando houver presença significativa de fauna na pista ou na trajetória imediata, a urgência operacional não deve se sobrepor à segurança. Aguardar uma inspeção ou solicitar providências pode ser a decisão mais adequada.
Após uma colisão ou suspeita de impacto, a prioridade é manter o controle da aeronave, avaliar seu comportamento e utilizar os procedimentos previstos pelo fabricante e pelo operador. Mesmo sem danos aparentes, a ocorrência deve ser comunicada e a aeronave inspecionada antes de retornar ao serviço.
O reporte é parte da prevenção
Relatar uma colisão, quase colisão ou concentração perigosa de animais não é burocracia. Esses registros ajudam a identificar espécies críticas, áreas de maior exposição, períodos sazonais e eficácia das medidas adotadas.
A regulamentação brasileira determina que eventos envolvendo fauna sejam relatados e registrados, utilizando o formulário disponibilizado pelo CENIPA. IS 153.501-001B — ANAC
Sem dados de qualidade, o operador pode conhecer o número de ocorrências, mas continuar sem compreender onde, quando e por que elas estão acontecendo.
Também é importante identificar corretamente a espécie envolvida. Uma medida eficaz para afastar urubus pode não produzir resultado semelhante com quero-queros, garças ou aves migratórias. O gerenciamento deve acompanhar o comportamento da fauna local.
Uma responsabilidade compartilhada
O risco não termina na cerca do aeroporto. A administração municipal possui papel importante no controle do uso do solo e na fiscalização de atividades que possam atrair animais.
Os órgãos ambientais participam da autorização e orientação das medidas de manejo. O operador aeroportuário monitora, registra e reduz os fatores de atração. O controle de tráfego transmite informações operacionais. Pilotos e empresas reportam ocorrências e condições de risco.
Quando um desses participantes deixa de cumprir sua parte, as demais barreiras ficam sobrecarregadas.
Conclusão
O perigo aviário não pode ser eliminado completamente, porque a aviação compartilha o ambiente com a fauna. Isso não significa, porém, que as colisões devam ser tratadas como simples fatalidade.
A presença de aves pode ser estudada, monitorada e gerenciada. Focos de atração podem ser reduzidos, informações podem ser compartilhadas e decisões operacionais podem evitar exposições desnecessárias.
A pergunta mais importante não é apenas quantas aves existem próximas ao aeroporto. É compreender por que elas estão ali, em quais horários cruzam as trajetórias das aeronaves e quais medidas concretas estão sendo adotadas.
Segurança de voo não consiste em esperar que a ave desvie. Consiste em construir um sistema no qual o risco seja conhecido antes que aeronave e fauna ocupem o mesmo ponto do espaço.
Marcuss Silva Reis
Piloto Comercial de asas fixas | Instrutor de escolas de aviação civil | Professor universitário de Ciências Aeronáuticas | Perito judicial em aviação | Economista | Pós-graduado em Ciências Aeronáuticas, Segurança da Aviação Civil e Docência do Ensino Superior | Técnico em Óptica
Fundador do Instituto do Ar
Fontes consultadas
