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terça-feira, 28 de julho de 2026

SGSO de papel: por que empresas aparentemente regulares ainda caminham para o acidente?

 



Uma empresa aérea pode possuir certificado válido, manuais aprovados, treinamentos registrados, auditorias realizadas e uma estrutura formal de segurança operacional. Ainda assim, pode permitir que riscos importantes permaneçam sem tratamento efetivo.

Essa aparente contradição ajuda a entender por que organizações consideradas regulares continuam expostas a acidentes. A existência de documentos demonstra que determinadas exigências formais foram atendidas. Não comprova, isoladamente, que a segurança esteja incorporada às decisões diárias.

O Sistema de Gerenciamento da Segurança Operacional (SGSO) não foi concebido como uma coleção de formulários. Ele deve funcionar como um processo vivo de identificação de perigos, avaliação de riscos, implantação de defesas e verificação contínua dos resultados.

Quando esse processo perde contato com a realidade da operação, surge o que podemos chamar de SGSO de papel: o sistema existe administrativamente, mas sua capacidade de interromper a deterioração da segurança é limitada.

O que realmente caracteriza um SGSO

A Agência Nacional de Aviação Civil define o SGSO como um método sistemático e integrado que envolve estrutura organizacional, responsabilidades, políticas e procedimentos destinados à manutenção da segurança operacional em nível aceitável.

A Organização da Aviação Civil Internacional estrutura o sistema em quatro componentes:

  • política e objetivos de segurança;

  • gerenciamento dos riscos;

  • garantia da segurança;

  • promoção da segurança.

Esses componentes dependem uns dos outros. Não basta declarar uma política de segurança se os riscos identificados não recebem recursos. Não basta receber reportes se eles são arquivados sem análise. Também não basta promover cursos se o ambiente operacional recompensa justamente os comportamentos que o treinamento procura evitar.

O SGSO começa a funcionar de verdade quando a organização transforma informação em decisão. Se uma anomalia é registrada repetidamente, alguém precisa investigar sua recorrência, avaliar sua gravidade e acompanhar a eficácia das medidas adotadas.

Conformidade não é sinônimo de segurança

Uma auditoria normalmente verifica documentos, processos, amostras e evidências disponíveis em determinado período. Isso é indispensável, mas possui limites.

Uma empresa pode demonstrar que existe um procedimento e, ao mesmo tempo, conviver com sua aplicação irregular. Pode apresentar registros de treinamento sem verificar se o conteúdo produziu competência prática. Pode possuir um canal de reporte que os empregados evitam usar por medo, descrença ou receio de consequências profissionais.

Por isso, conformidade e desempenho precisam ser avaliados conjuntamente.

A conformidade pergunta: o procedimento existe?

A segurança operacional pergunta: o procedimento funciona, é respeitado e controla o risco para o qual foi criado?

Essa diferença é fundamental. Um manual impecável não compensa uma cultura que normaliza atalhos. Uma matriz de risco bem elaborada não protege a operação quando perigos conhecidos recebem classificações convenientes apenas para evitar custos, atrasos ou mudanças de planejamento.

A lenta normalização do desvio

Organizações raramente abandonam seus padrões de uma só vez. A deterioração costuma ocorrer gradualmente.

Primeiro aparece uma exceção considerada justificável. Depois, a mesma exceção é repetida. Como nada grave acontece imediatamente, o desvio passa a ser interpretado como aceitável. Com o tempo, aquilo que era excepcional transforma-se em prática informal.

Esse processo pode aparecer de várias maneiras:

  • falhas que voltam a ocorrer sem solução definitiva;

  • manutenção adiada repetidamente dentro de interpretações cada vez mais permissivas;

  • treinamentos tratados como obrigação burocrática;

  • pressão para cumprir a programação apesar de sinais de risco;

  • reportes que não produzem retorno aos profissionais;

  • escalas legalmente possíveis, mas operacionalmente desgastantes;

  • gestores avaliados apenas por regularidade, produtividade ou custo;

  • diferenças crescentes entre o procedimento escrito e o trabalho real.

O problema não está apenas no desvio individual. Está na capacidade da organização de detectá-lo, compreender suas causas e impedir que ele se torne parte do sistema.

A fadiga do tripulante como teste de realidade do SGSO

A fadiga é um dos exemplos mais claros da distância que pode existir entre regularidade formal e segurança efetiva.

Uma escala pode respeitar limites prescritivos e, ainda assim, produzir elevado desgaste quando se consideram madrugadas sucessivas, mudanças de horário, jornadas irregulares, múltiplas etapas, tempo de deslocamento, sono insuficiente, carga de trabalho e perturbação do ritmo circadiano.

O Sindicato Nacional dos Aeronautas (SNA) tem produzido documentos e levantamentos sobre o tema. No Relatório de Fadiga, a entidade disponibiliza resultados gerais e recortes referentes a pilotos, comissários e empresas. Em manifestação apresentada no debate sobre o RBAC 117, o sindicato informou ter reunido uma amostra superior a quatro mil aeronautas e defendeu que a regulação da fadiga considere princípios científicos e a experiência operacional dos tripulantes.

Em publicação de 2023 baseada nessa pesquisa, o SNA informou que 87,32% dos participantes disseram sentir fadiga durante as operações. Desse conjunto, 16,27% relataram a percepção uma vez por semana, 27,97% duas vezes e 43,08% três ou mais vezes por semana. Esses resultados representam a pesquisa da entidade sindical e não devem ser confundidos com estatística oficial de acidentes ou com conclusão de investigação aeronáutica. Ainda assim, constituem um importante sinal de exposição operacional que merece análise.

O Guia de Reporte de Fadiga, também publicado pelo SNA, destaca que a ausência de reportes dificulta a identificação de tendências e reduz a eficácia do gerenciamento do risco. O documento apresenta o reporte como parte de uma responsabilidade compartilhada: o tripulante precisa comunicar sua condição, enquanto a organização precisa possuir um ambiente confiável para receber, analisar e responder à informação.

O Relatório FRMS dos Aeronautas — Parte II, elaborado com participação do SNA, associações de tripulantes e pesquisador ligado à Universidade de São Paulo, propõe uma abordagem científica para o gerenciamento do risco da fadiga. O documento trata de fatores como jornadas, trabalho em horários biologicamente desfavoráveis, deslocamentos e necessidade de medidas de mitigação.

Esses materiais ajudam a demonstrar um ponto central: a fadiga não pode ser reduzida à resistência pessoal do piloto ou do comissário. Ela é um risco sistêmico. Precisa ser tratada por meio de dados, reportes, desenho de escalas, análise de tendências, participação dos trabalhadores e verificação da eficácia das medidas adotadas.

Se os reportes se acumulam, mas as escalas permanecem inalteradas, o sistema não está aprendendo. Se o profissional teme declarar fadiga, o canal formal existe, mas sua utilidade operacional está comprometida. Se a empresa observa apenas se a jornada está dentro do limite máximo, deixa de analisar a exposição real ao risco.

Indicadores que aparecem antes do acidente

Um SGSO eficaz não espera a ocorrência grave para reconhecer a deterioração. Ele trabalha principalmente com sinais antecedentes.

Entre os indicadores que merecem acompanhamento estão:

  • aumento de reportes de fadiga;

  • afastamentos e dificuldades recorrentes de composição de escala;

  • repetição de panes ou anotações técnicas semelhantes;

  • crescimento de itens diferidos de manutenção;

  • resultados insatisfatórios em treinamento e verificações;

  • instabilidade no quadro de pilotos, mecânicos e gestores;

  • ocorrências operacionais de baixa gravidade com características repetidas;

  • aumento de extensões de jornada;

  • concentração de eventos em determinadas bases, rotas, horários ou tipos de operação;

  • demora na implantação de ações corretivas;

  • recorrência de não conformidades já consideradas encerradas.

Esses elementos não provam, isoladamente, que uma empresa esteja insegura. Funcionam como sinais que precisam ser cruzados, contextualizados e investigados.

Uma organização madura não procura apenas confirmar que continua regular. Ela procura descobrir onde suas defesas estão ficando mais fracas.

O silêncio também produz informação

Um número reduzido de reportes não significa necessariamente uma operação sem perigos. Pode indicar que os profissionais não confiam no sistema.

Quando um empregado relata um problema e não recebe retorno, aprende que reportar não produz mudança. Quando se sente exposto ou ameaçado, aprende que o silêncio é mais seguro para sua carreira. Quando a chefia interpreta todo relato como falta de comprometimento, a organização perde uma de suas principais fontes de informação preventiva.

A cultura justa não significa ausência de responsabilização. Erros involuntários, decisões tomadas sob condições complexas, negligência e violações deliberadas não são situações equivalentes. O sistema deve distingui-las com critérios claros.

Sem essa distinção, surgem dois extremos igualmente perigosos: a punição automática, que destrói a confiança, e a tolerância indiscriminada, que normaliza o descumprimento.

Segurança exige independência e recursos

O setor responsável pelo SGSO precisa possuir acesso à direção, competência técnica, proteção institucional e recursos compatíveis com a complexidade da operação.

Quando a área de segurança depende da aprovação daqueles cujas decisões precisa questionar, sua independência pode tornar-se apenas nominal. Quando não possui pessoal suficiente para analisar dados, acompanhar ações corretivas e observar a operação, transforma-se em produtora de relatórios.

O gestor responsável também precisa compreender que segurança operacional não é uma atribuição exclusiva do departamento de safety. Decisões comerciais, financeiras, operacionais, trabalhistas e de manutenção alteram o nível de risco.

Se a organização reduz efetivos, amplia utilização de aeronaves, modifica escalas ou adia investimentos, o SGSO deve avaliar as consequências dessas mudanças antes que elas sejam absorvidas silenciosamente pela rotina.

O papel da fiscalização

A autoridade reguladora não deve limitar sua atuação à confirmação de que os documentos exigidos foram apresentados. A supervisão precisa avaliar se o sistema demonstra capacidade real de identificar perigos e controlar riscos.

Isso exige fiscalização baseada em risco, análise de tendências, cruzamento de informações e acompanhamento das ações corretivas. Também exige inspetores qualificados, continuidade institucional e recursos tecnológicos e humanos.

Uma não conformidade não está verdadeiramente encerrada porque recebeu uma resposta administrativa. Ela somente pode ser considerada controlada quando a solução foi implantada, verificada e demonstrou eficácia.

Na fadiga, por exemplo, a fiscalização precisa observar mais do que os limites máximos de jornada. Deve considerar a qualidade do sistema de reportes, o funcionamento do gerenciamento do risco, a participação dos tripulantes, a análise científica das escalas e as medidas adotadas diante das tendências identificadas.

Como reconhecer um SGSO vivo

Um SGSO funcional deixa marcas perceptíveis na organização:

  • reportes produzem investigação e retorno;

  • perigos recorrentes recebem prioridade;

  • decisões de segurança possuem responsáveis e prazos;

  • ações corretivas são verificadas depois de implantadas;

  • trabalhadores conseguem comunicar riscos sem medo;

  • a direção aceita interromper ou modificar uma operação;

  • indicadores são analisados por tendência, e não isoladamente;

  • alterações operacionais passam por gerenciamento de mudança;

  • produtividade nunca é utilizada para neutralizar evidências de risco.

O sistema funciona quando tem autoridade para contrariar a conveniência do momento.

Conclusão

Empresas aparentemente regulares podem caminhar para o acidente quando confundem documentação com controle de risco. O certificado, o manual e a auditoria são necessários, mas não substituem a observação crítica da operação real.

A fadiga dos tripulantes mostra com clareza essa diferença. Não basta cumprir limites numéricos ou disponibilizar um formulário. É necessário estimular reportes, proteger quem comunica, analisar tendências, rever escalas e comprovar que as medidas de mitigação funcionam.

O acidente não começa necessariamente no último voo. Muitas vezes, começa meses ou anos antes, quando sinais conhecidos deixam de incomodar, os desvios passam a parecer normais e o SGSO perde a capacidade de transformar informação em ação.

Um sistema de segurança só é verdadeiro quando consegue interferir na operação antes que a realidade imponha a sua própria auditoria.


Marcuss Silva Reis
Piloto Comercial de asas fixas | Instrutor de escolas de aviação civil | Professor universitário de Ciências Aeronáuticas | Perito judicial em aviação | Economista | Pós-graduado em Ciências Aeronáuticas, Segurança da Aviação Civil e Docência do Ensino Superior | Técnico em Óptica
Fundador do Instituto do Ar

Como a Inteligência Artificial pode transformar a fiscalização da aviação geral

 


A aviação geral reúne operações privadas, corporativas, de instrução, aerodesportivas e outras atividades que não envolvem transporte aéreo público. Embora jatos executivos utilizados em operações privadas façam parte desse universo, o táxi aéreo constitui uma atividade comercial sujeita a regras específicas, como o RBAC nº 135.

Essa distinção é importante porque a fiscalização aeronáutica não pode ser construída sobre categorias imprecisas. Cada tipo de operador apresenta riscos, obrigações e níveis de complexidade diferentes.

Mesmo dentro da aviação geral, o desafio é considerável. O segmento possui milhares de aeronaves com características distintas, operações distribuídas por uma extensa rede de aeródromos, voos em regiões remotas e grande variedade de operadores — desde proprietários individuais até departamentos de aviação corporativa e centros de instrução.

Nesse ambiente, a Inteligência Artificial pode ampliar a capacidade de análise dos órgãos reguladores, dos administradores aeroportuários e dos próprios operadores.

Sua principal contribuição não será substituir fiscais, inspetores, mecânicos ou pilotos, mas organizar grandes volumes de dados, identificar padrões e mostrar onde a atenção humana é mais necessária.

A Inteligência Artificial e a fiscalização baseada em risco

O modelo mais promissor não é o da vigilância indiscriminada sobre todos os voos, mas o da fiscalização baseada em risco.

O Programa de Segurança Operacional Específico da Agência Nacional de Aviação Civil — PSOE-ANAC — trata essa abordagem como uma forma de orientar a supervisão a partir de avaliações de risco, desempenho e outras informações disponíveis.

A IA pode reforçar esse sistema ao combinar dados de aeronaves, operadores, manutenção, ocorrências, fiscalizações anteriores e exposição operacional. A partir desse conjunto, os algoritmos podem indicar quais organizações, aeronaves ou tipos de operação merecem prioridade em uma auditoria.

Esse resultado deve ser entendido como um alerta, não como prova de irregularidade. Um modelo estatístico pode identificar uma anomalia, mas somente uma apuração tecnicamente conduzida pode determinar se houve descumprimento das normas.

Monitoramento e análise dos dados de voo

Uma das aplicações mais discutidas é a análise automatizada de dados provenientes de radar, ADS-B, planos de voo e outros sistemas utilizados no gerenciamento do tráfego aéreo.

O que o ADS-B realmente informa

No ADS-B — Vigilância Dependente Automática por Radiodifusão — a aeronave transmite informações como identificação, posição, altitude e velocidade. Esses dados podem aumentar a precisão e a frequência das informações disponíveis para o controle do tráfego aéreo.

Em janeiro de 2026, o Departamento de Controle do Espaço Aéreo informou que avançava na expansão do ADS-B e em sua integração com dados de radar no Sistema de Controle do Espaço Aéreo Brasileiro. Esse desenvolvimento aumenta o potencial de acompanhamento do tráfego em áreas onde a infraestrutura de vigilância está sendo modernizada.

Contudo, o ADS-B não deve ser apresentado como um sistema universal capaz de acompanhar continuamente todas as aeronaves da aviação geral.

A cobertura, os requisitos de equipamento, a altitude, o relevo, a disponibilidade das estações e a integridade dos dados influenciam os resultados. Além disso, por depender da posição calculada a bordo, o sistema pode ser afetado por informações GNSS incorretas ou degradadas.

O que a IA pode procurar

Com dados confiáveis e acesso legalmente autorizado, algoritmos podem apontar:

  • trajetórias incompatíveis com parâmetros previamente definidos;
  • aproximações recorrentes de áreas restritas ou proibidas;
  • diferenças relevantes entre dados declarados e comportamento observado;
  • padrões incomuns de utilização de determinada aeronave;
  • alterações de altitude, velocidade ou rota que mereçam análise;
  • concentração de eventos em determinado aeródromo, região ou tipo de operação.

Esses sinais podem ajudar a selecionar fiscalizações, mas não autorizam conclusões automáticas.

Um desvio pode decorrer de condições meteorológicas, instrução do controle de tráfego, emergência, falha de equipamento ou outra razão operacional legítima. A IA identifica uma diferença; o profissional precisa compreender o contexto.

IA aplicada à manutenção e à aeronavegabilidade

A Inteligência Artificial também pode apoiar operadores e organizações de manutenção na identificação de tendências técnicas.

Nesse ponto, entretanto, é fundamental separar manutenção preditiva de aeronavegabilidade legal.

Manutenção preditiva

Em aeronaves equipadas com sistemas capazes de registrar parâmetros, modelos analíticos podem acompanhar temperaturas, pressões, vibrações, consumo de óleo, desempenho do motor, mensagens de falha e comportamento de componentes.

O sistema pode perceber uma degradação gradual antes que ela se transforme em falha evidente. Isso permite planejar verificações, reduzir indisponibilidades e direcionar o trabalho da manutenção.

Na aviação geral, essa possibilidade depende muito da aeronave e de seus equipamentos. Uma aeronave moderna, com monitoramento digital do motor, produz dados diferentes daqueles disponíveis em um avião antigo e predominantemente analógico.

Não existe, portanto, uma solução única aplicável a toda a frota.

Mais importante: uma previsão produzida por IA não substitui inspeções obrigatórias, dados aprovados de manutenção, instruções de aeronavegabilidade continuada, diretrizes de aeronavegabilidade ou a liberação realizada por profissional habilitado.

A ferramenta recomenda uma investigação. Ela não declara a aeronave aeronavegável.

Visão computacional e inspeções por imagem

Câmeras de alta resolução, boroscópios, equipamentos robóticos e drones podem gerar imagens para análise por sistemas de visão computacional.

O software pode destacar possíveis sinais de corrosão, danos superficiais, deformações, vazamentos ou impactos. Essa tecnologia pode ser especialmente útil na triagem de áreas extensas e na comparação de imagens obtidas em momentos diferentes.

Todavia, qualquer indicação visual precisa ser confirmada por método apropriado e por pessoal qualificado.

Um drone pode melhorar o acesso visual a determinadas áreas, mas não substitui automaticamente uma inspeção prevista no programa de manutenção. Seu emprego também precisa respeitar as regras de operação de aeronaves não tripuladas, a segurança do trabalho e as limitações do ambiente aeroportuário.

Análise dos registros de manutenção

Processamento de linguagem natural e reconhecimento óptico de caracteres podem examinar registros digitalizados, cadernetas, ordens de serviço e fichas de componentes.

A IA pode procurar:

  • campos ausentes;
  • divergências entre horas ou ciclos;
  • referências incorretas;
  • assinaturas ou registros incompletos;
  • componentes próximos de seus limites controlados;
  • serviços obrigatórios que necessitem de confirmação;
  • incompatibilidades entre diferentes documentos.

Essa aplicação pode reduzir o tempo gasto em verificações repetitivas. Entretanto, registros antigos, manuscritos ou incompletos aumentam a possibilidade de erro.

Todo apontamento relevante deve ser conferido no documento original.

Identificação de operações possivelmente irregulares

A IA pode ajudar a selecionar indícios de transporte clandestino de passageiros, uso incompatível com a categoria do operador ou outras operações que exijam investigação.

Um sistema poderia cruzar frequência de voos, destinos, propriedade da aeronave, publicidade aberta, registros administrativos e histórico de fiscalizações.

Uma sequência de padrões incompatíveis com o perfil declarado poderia gerar uma indicação de prioridade para a autoridade.

Esse mecanismo não pode transformar correlação em culpa.

Uma aeronave privada pode realizar muitos voos legítimos, transportar convidados ou operar regularmente entre os mesmos destinos. A caracterização de transporte aéreo clandestino depende de investigação, contexto jurídico e evidências — não apenas de uma pontuação produzida por algoritmo.

Também é essencial proteger o sistema contra vieses. Se o modelo for treinado apenas com irregularidades anteriormente encontradas em determinadas regiões ou perfis de operador, poderá concentrar fiscalizações nos mesmos grupos e deixar outras áreas sem análise adequada.

Fiscalização documental mais eficiente

Grande parte da fiscalização aeronáutica envolve conferência de documentos, validade de certificados, registros de treinamento, situação das aeronaves e atendimento aos requisitos regulatórios.

A IA pode extrair informações, verificar a consistência entre bases e apresentar ao fiscal uma lista de possíveis pendências.

Entre as aplicações estão:

  • identificação de certificados próximos do vencimento;
  • comparação entre horas registradas em documentos diferentes;
  • verificação de qualificações exigidas para determinada atividade;
  • localização de lacunas nos registros de treinamento;
  • seleção de amostras para auditorias presenciais ou remotas;
  • análise inicial de respostas e planos de ação apresentados pelo regulado.

O ganho mais importante seria liberar o especialista de parte do trabalho repetitivo, permitindo que se concentre na avaliação técnica.

Por outro lado, um documento pode aparecer como vencido em determinada base em razão de atraso na atualização, duplicidade ou erro de cadastro. Por isso, medidas administrativas relevantes precisam continuar submetidas à conferência humana e ao devido processo.

Segurança operacional nos aeródromos

Nos aeródromos, a IA pode analisar imagens para identificar objetos na pista, presença de animais, veículos em áreas operacionais, deterioração aparente do pavimento e acessos não autorizados.

Também pode ajudar a organizar relatos, inspeções e tendências de ocorrências, apoiando a vigilância continuada.

A ANAC admite que a fiscalização de aeródromos seja realizada por meio de inspeções e auditorias presenciais ou remotas. Ferramentas de IA podem ampliar a capacidade de análise dessas evidências sem eliminar a necessidade de verificação operacional.

O reconhecimento facial, frequentemente citado como solução para controle de acesso, merece cautela especial.

Dados biométricos são considerados dados pessoais sensíveis pela Lei Geral de Proteção de Dados. Sua utilização exige finalidade legítima, necessidade, segurança, controle de acesso e proporcionalidade.

Em muitos casos, credenciais eletrônicas, controle de veículos e monitoramento das áreas podem atingir o objetivo com menor impacto sobre a privacidade.

Os riscos criados pela própria IA

Aplicar Inteligência Artificial à fiscalização de uma atividade de segurança crítica exige controlar os riscos produzidos pela própria ferramenta.

Entre eles estão:

  • dados incompletos, incorretos ou desatualizados;
  • falsos positivos e falsos negativos;
  • dificuldade de explicar por que o modelo gerou determinado alerta;
  • vieses contra regiões, operadores ou tipos de aeronave;
  • vazamento de informações pessoais ou operacionais;
  • ataques cibernéticos e manipulação de dados;
  • dependência excessiva da automação;
  • perda gradual da capacidade crítica dos profissionais.

Em 2025, documentos apresentados à 42ª Assembleia da Organização da Aviação Civil Internacional reconheceram o potencial da IA para melhorar a supervisão regulatória e a análise preditiva.

Os documentos também destacaram a necessidade de coordenação internacional, validação, tratamento dos riscos e desenvolvimento de orientações harmonizadas.

Isso demonstra que a tecnologia já ocupa a agenda regulatória internacional, mas sua aplicação ainda exige a construção de normas, critérios e métodos confiáveis.

Como deveria funcionar uma fiscalização assistida por IA

Um sistema responsável deveria seguir uma cadeia clara:

  1. Dados legalmente obtidos e tecnicamente qualificados alimentam o sistema.
  2. O algoritmo procura anomalias ou tendências previamente definidas.
  3. O alerta apresenta seus fundamentos e nível de confiança.
  4. Um profissional qualificado verifica o contexto operacional.
  5. Havendo justificativa, inicia-se a ação fiscalizatória pelos procedimentos regulares.
  6. O resultado real retorna ao sistema para medir erros e aperfeiçoar o modelo.

Também devem existir registros de auditoria, controle de versões, avaliação independente, segurança cibernética e mecanismos para contestar conclusões incorretas.

Um algoritmo incapaz de explicar minimamente seus alertas não deveria fundamentar sozinho uma medida que afete certificados, licenças ou direitos do regulado.

O futuro está na integração responsável dos dados

Nos próximos anos, o maior avanço provavelmente virá da integração entre bases que atualmente permanecem separadas.

Dados operacionais, registros de manutenção, informações de vigilância, resultados de fiscalizações e reportes de segurança podem formar uma visão mais ampla dos riscos.

Registros digitais com trilhas de auditoria tendem a ser mais úteis do que simplesmente inserir a palavra “blockchain” em qualquer projeto.

A prioridade deve ser garantir autenticidade, integridade, disponibilidade, interoperabilidade e responsabilidade sobre os dados. Uma arquitetura convencional bem administrada pode ser superior a uma solução complexa utilizada apenas por apelo tecnológico.

A Inteligência Artificial poderá tornar a fiscalização mais seletiva, rápida e preventiva. Entretanto, seu sucesso não será medido pela quantidade de alertas produzidos.

Será medido pela capacidade de identificar riscos relevantes sem punir operações legítimas, proteger os dados dos usuários e preservar a responsabilidade dos profissionais.

Conclusão

A fiscalização da aviação geral enfrenta uma realidade extensa, diversificada e geograficamente dispersa.

A Inteligência Artificial oferece instrumentos valiosos para analisar trajetórias, selecionar inspeções, examinar registros, identificar tendências técnicas e direcionar recursos para áreas de maior risco.

Entretanto, a IA não é autoridade aeronáutica, inspetor, mecânico ou investigador. Ela trabalha com probabilidades e depende da qualidade dos dados que recebe.

Pode apontar onde procurar, mas não deve decidir sozinha se uma aeronave está aeronavegável, se um piloto cometeu uma infração ou se um operador agiu ilegalmente.

O futuro mais seguro não será o da fiscalização automática, mas o da fiscalização tecnicamente assistida: dados melhores, algoritmos auditáveis e profissionais qualificados tomando a decisão final.

  • ANAC — Programa de Segurança Operacional Específico da Agência, PSSO 2026
  • ANAC — Fiscalização de aeródromos
  • ANAC — Vigilância continuada dos aeroportos certificados
  • DECEA — Expansão do ADS-B no Brasil, janeiro de 2026
  • ANAC — Boletim sobre operações com perturbações de sinais GNSS
  • OACI — Inteligência Artificial aplicada à supervisão regulatória
  • OACI — Integração responsável da Inteligência Artificial na aviação
  • Planalto — Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais

  • Marcuss Silva Reis
    Piloto Comercial de asas fixas | Instrutor de escolas de aviação civil | Professor universitário de Ciências Aeronáuticas | Perito judicial em aviação | Economista | Pós-graduado em Ciências Aeronáuticas, Segurança da Aviação Civil e Docência do Ensino Superior | Técnico em Óptica
    Fundador do Instituto do Ar

    segunda-feira, 27 de julho de 2026

    Opinião: A ANAC foi enganada pela Voepass — mas quem fiscaliza não pode apenas confiar em documentos




    Assisti atentamente à entrevista concedida pelo diretor-presidente da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) ao Fantástico, exibida em 26 de julho de 2026, sobre o acidente com o voo 2283 da Voepass. Entre todas as declarações, uma delas merece reflexão profunda: segundo o dirigente, a empresa encaminhava informações falsas à agência e declarava documentalmente a realização de serviços que, na prática, não teriam sido executados.

    O presidente chegou a reconhecer que o corpo técnico da ANAC foi enganado porque analisou documentos que não correspondiam à realidade. A afirmação é gravíssima. Ela não envolve apenas uma possível irregularidade administrativa. Coloca em discussão a confiabilidade de todo um sistema de vigilância baseado, em parte, nas informações fornecidas pelo próprio operador fiscalizado.

    Mas essa explicação também produz uma pergunta inevitável: diante de não conformidades recorrentes, de registros problemáticos e de sinais que apontavam para uma cultura organizacional fragilizada, por que o sistema de fiscalização não elevou o nível de controle antes do acidente?

    Infelizmente, as respostas apresentadas pelo presidente da ANAC na entrevista não satisfazem a quem conhece desse riscado. Elas explicam que a agência teria sido enganada por documentos incompatíveis com a realidade, mas não esclarecem por que a recorrência das não conformidades não levou, em tempo oportuno, ao aumento das inspeções presenciais, à verificação física dos serviços declarados e à adoção de medidas operacionais mais rigorosas.

    A empresa pode ter enganado a agência, mas isso não encerra a discussão

    É necessário manter a prudência jurídica. A declaração do presidente da ANAC permite afirmar que, segundo a própria agência, a Voepass apresentou informações e documentos que não refletiam os serviços efetivamente realizados. Entretanto, a caracterização jurídica de fraude, falsidade documental ou responsabilidade criminal dependerá das investigações conduzidas pelas autoridades competentes.

    Também não seria correto afirmar que a ANAC nada fez. O Relatório Final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA) reconheceu a existência de fiscalizações, notificações e medidas sancionatórias. Posteriormente, a agência suspendeu cautelarmente as operações da Voepass em 11 de março de 2025 e cassou, em 24 de junho daquele ano, o Certificado de Operador Aéreo da Passaredo Transportes Aéreos, principal empresa do grupo.

    O problema está na linha do tempo. Essas medidas mais severas foram adotadas depois do acidente de 9 de agosto de 2024. A questão que permanece não é se a ANAC agiu em algum momento, mas se reagiu com a intensidade e a antecedência exigidas pelos sinais que já estavam disponíveis.

    Fiscalização eletrônica não pode ser confundida com confiança eletrônica

    A digitalização é indispensável para a aviação moderna. Relatórios eletrônicos, sistemas de gerenciamento, bancos de dados e auditorias remotas permitem acompanhar uma quantidade enorme de informações com rapidez. O erro começa quando o documento digital deixa de ser uma fonte de informação e passa a ser tratado como prova suficiente de que o serviço foi realizado.

    Fiscalizar não significa apenas receber uma declaração de conformidade. Significa verificar se a realidade operacional corresponde ao que foi declarado.

    Se um operador informa que uma peça foi substituída, a supervisão precisa ser capaz de confirmar, por amostragem ou diante de fatores de risco, a existência da peça instalada, sua rastreabilidade, o número de série, a ordem de serviço, a liberação para retorno ao serviço e a coerência entre os registros de manutenção.

    Quando aparecem reincidências, divergências ou uma concentração anormal de falhas, a resposta regulatória precisa mudar. O controle meramente documental deve dar lugar a inspeções presenciais mais frequentes, verificações não anunciadas, cruzamento de dados e acompanhamento direto das atividades de manutenção e operação.

    Uma fiscalização baseada em risco não pode apenas acumular não conformidades. Ela precisa interpretar o padrão formado por elas.

    Os sinais não surgiram de uma única vez

    O Relatório Final do CENIPA descreveu uma cultura de informalidade e de normalização de desvios na Voepass. Problemas técnicos nem sempre eram devidamente registrados, práticas informais alcançavam diferentes setores e a supervisão gerencial não conseguiu impedir a degradação progressiva das barreiras de segurança.

    O CENIPA também apontou deficiência na supervisão exercida pela autoridade reguladora. Segundo a investigação, condições latentes já identificadas não foram adequadamente aproveitadas no processo de gerenciamento de risco, e houve insuficiência de supervisão sobre as práticas informais existentes no operador.

    Esse aspecto é fundamental. Um documento falso pode enganar um fiscal em uma verificação isolada. Entretanto, sucessivas não conformidades, falhas repetidas, registros incoerentes e desempenho muito diferente do observado em empresas equivalentes deveriam produzir um alerta sistêmico.

    Segundo dados apresentados na reportagem do Fantástico e reproduzidos por outros veículos, em 2023 a Voepass teria concentrado 82% das falhas apontadas pela ANAC, embora representasse somente 0,6% dos voos realizados no país. A reportagem também informou que a empresa teria recebido dez notificações relacionadas ao sistema de degelo entre 2022 e 2024. Esses números precisam ser lidos dentro de sua metodologia e contexto, mas, se confirmados dessa forma, constituíam um sinal estatístico extraordinariamente desproporcional.

    Não se tratava apenas de perguntar se cada formulário estava preenchido. Era necessário perguntar por que uma empresa com participação operacional tão pequena concentrava parcela tão elevada das ocorrências identificadas pela fiscalização.

    O regulador não pode depender exclusivamente da boa-fé do regulado

    Todo sistema regulatório pressupõe algum grau de declaração por parte das empresas. Seria impraticável manter um fiscal ao lado de cada mecânico, em cada inspeção e durante cada voo. Isso não significa, contudo, que o Estado possa transferir ao operador a responsabilidade de validar sozinho a própria conformidade.

    Quanto maior a recorrência das irregularidades, menor deve ser o grau de confiança automática e maior deve ser a intensidade da verificação independente.

    Esse é o princípio básico da fiscalização baseada em risco: empresas com histórico consistente de conformidade podem ser acompanhadas dentro de determinado nível de supervisão; empresas que apresentam reincidências, inconsistências ou indicadores anormais precisam ser submetidas a um regime de vigilância mais rigoroso.

    A afirmação de que a ANAC foi enganada explica como determinadas análises podem ter sido comprometidas. Não explica, por si só, por que os mecanismos de detecção não identificaram mais cedo que os documentos apresentados não correspondiam à condição real das aeronaves.

    Na prática, a declaração do presidente não reduz a gravidade da deficiência regulatória. Ela demonstra que o modelo utilizado não possuía barreiras suficientes para detectar a quebra de confiança documental.

    A pergunta que precisa ser respondida

    Depois da entrevista, algumas questões permanecem abertas:

    • Em que momento a ANAC percebeu que havia documentos incompatíveis com os serviços efetivamente realizados?

    • Quantos registros com informações falsas foram identificados?

    • Quais providências administrativas e legais foram adotadas após essa constatação?

    • Houve comunicação dos fatos à Polícia Federal, ao Ministério Público ou a outros órgãos competentes?

    • Por que a reincidência das não conformidades não provocou, antes do acidente, uma escalada mais rápida das restrições operacionais?

    • Os sistemas eletrônicos utilizados pela agência permitiam cruzar os dados de manutenção, operação, falhas recorrentes e desempenho do operador?

    Responder a essas perguntas não significa antecipar culpa nem transformar uma investigação de segurança em julgamento. Significa avaliar se o sistema regulatório brasileiro possui capacidade de reconhecer a degradação de uma organização antes que suas últimas barreiras sejam ultrapassadas.

    A suspensão posterior não substitui a prevenção anterior

    A suspensão cautelar das operações e a posterior cassação do certificado foram medidas severas. Elas demonstram que a ANAC possui instrumentos para intervir quando identifica a perda da capacidade do operador de manter os padrões exigidos.

    O desafio é fazer com que esses instrumentos funcionem preventivamente. Em segurança de voo, agir depois de uma tragédia pode impedir a repetição imediata, mas não recupera a oportunidade de interromper a cadeia de eventos anteriormente.

    O objetivo da fiscalização não é produzir relatórios, acumular autos de infração ou demonstrar conformidade burocrática. Sua finalidade é garantir que a empresa tenha capacidade real e contínua de operar dentro de níveis aceitáveis de segurança.

    Conclusão: documento eletrônico não mantém aeronavegabilidade

    Se a empresa apresentou informações falsas, como declarou o presidente da ANAC, estamos diante de uma ruptura gravíssima da confiança regulatória. Mas a segurança da aviação não pode depender apenas da honestidade documental de quem está sendo fiscalizado.

    Um sistema robusto trabalha com confiança, mas também com verificação. Recebe dados, mas cruza informações. Analisa documentos, mas inspeciona a realidade. E, diante da recorrência, deixa de tratar cada desvio como um fato isolado para reconhecer o padrão organizacional que está se formando.

    A empresa precisa responder pelas informações que forneceu e por suas práticas de operação e manutenção. A autoridade reguladora, por sua vez, precisa explicar por que os sinais acumulados não produziram uma intervenção suficientemente eficaz antes do acidente.

    Ser enganado pode explicar uma falha pontual. Não pode se transformar em resposta definitiva quando a própria recorrência das não conformidades indicava que já não era prudente apenas confiar.


    Marcuss Silva Reis
    Piloto Comercial de asas fixas | Instrutor de escolas de aviação civil | Professor universitário de Ciências Aeronáuticas | Perito em aviação | Economista | Pós-graduado em Ciências Aeronáuticas, Segurança da Aviação Civil e Docência do Ensino Superior | Técnico em Óptica
    Fundador do Instituto do Ar

    Fontes consultadas

    Opinião: o fim das estruturas dos aeroclubes e o empobrecimento da formação aeronáutica no Brasil

     



    Durante grande parte do século XX, o caminho de entrada na aviação brasileira passava quase obrigatoriamente por um aeroclube. Era ali que o jovem conhecia o avião de perto, conversava com pilotos experientes, acompanhava a manutenção, aprendia a respeitar a meteorologia e começava a compreender que voar não era apenas movimentar comandos. Era ingressar em uma cultura.

    Essa estrutura foi sendo desmontada silenciosamente.

    Os aeroclubes não desapareceram por força de uma única decisão, nem todos encerraram suas atividades. Instituições tradicionais continuam formando pilotos e algumas conseguiram modernizar sua gestão. O que praticamente chegou ao fim foi o antigo sistema nacional de aeroclubes: uma rede capilarizada, associativa e relativamente acessível, presente em diferentes regiões e capaz de formar pilotos, instrutores, mecânicos e lideranças para toda a aviação brasileira.

    O país preservou parte dos nomes, mas perdeu grande parte da estrutura que dava sentido a eles.

    O aeroclube era muito mais que uma escola

    O próprio Código Brasileiro de Aeronáutica define o aeroclube como uma sociedade civil com patrimônio e administração próprios, destinada principalmente ao ensino e à prática da aviação civil, além de atividades aeronáuticas de caráter desportivo e social.

    Na prática, o aeroclube cumpria uma função ainda maior. Ele reunia escola, hangar, oficina, aeronaves, instrutores, pilotos veteranos, alunos e comunidade. O estudante não comprava apenas uma hora de voo. Permanecia no ambiente, observava outras operações, ouvia relatos, participava de palestras e aprendia com os erros e acertos de diferentes gerações.

    Foi nesse ambiente que muitos comandantes da aviação comercial, executiva e agrícola começaram suas carreiras. Também foi nele que inúmeros instrutores conquistaram experiência e que cidades do interior mantiveram algum vínculo permanente com a aviação.

    Como piloto e antigo instrutor de escola de aviação civil, vivi parte dessa realidade. A formação não acontecia somente dentro da cabine. Ela continuava no pátio, no hangar, na sala de operações e nas conversas após o voo.

    Havia falhas, improvisações e práticas que hoje não devem ser romantizadas. Entretanto, existia uma comunidade aeronáutica que ajudava a formar julgamento, disciplina e identidade profissional.

    Como essa estrutura foi enfraquecida

    Não existe uma causa isolada. O enfraquecimento dos aeroclubes brasileiros resultou da combinação de fatores econômicos, patrimoniais, regulatórios e administrativos.

    Custos incompatíveis com a função social

    A instrução de voo tornou-se progressivamente mais cara. Combustível, peças importadas, motores, seguros, manutenção, hangaragem e taxas pressionam uma operação que já possui margens estreitas.

    Uma associação sem fins lucrativos dificilmente consegue formar reservas suficientes para renovar sua frota ou absorver uma grande manutenção não programada.

    Quando uma aeronave para, o aeroclube perde receita justamente no momento em que mais precisa de recursos. Se a frota é pequena, a indisponibilidade de um único avião compromete horários, alunos, instrutores e fluxo de caixa.

    Forma-se um ciclo conhecido: aeronaves antigas exigem mais manutenção; a menor disponibilidade reduz a receita; a falta de receita adia investimentos; e a estrutura se deteriora ainda mais.

    Envelhecimento da frota

    Durante décadas, muitos aeroclubes operaram aeronaves robustas, porém progressivamente envelhecidas. Antiguidade, por si só, não torna uma aeronave insegura quando ela é corretamente mantida.

    O problema aparece quando a idade da frota se encontra com a dificuldade de obter componentes, oficinas, motores, mão de obra especializada e recursos para grandes revisões.

    O Brasil não estruturou uma política contínua de financiamento para renovação das aeronaves de instrução. Um relatório produzido pelo Senado em 2013 já recomendava a criação de programas de fomento, bolsas de formação e financiamento para aeronaves e equipamentos. O diagnóstico envelheceu; grande parte da frota também. Senado Federal — relatório sobre a aviação civil.

    Perda de espaço nos aeroportos

    Muitos aeroclubes nasceram quando os terrenos aeroportuários estavam afastados das áreas urbanizadas. As cidades cresceram, os imóveis se valorizaram e o espaço ocupado pela aviação de instrução passou a ser visto principalmente sob uma lógica comercial.

    Concessões aeroportuárias, mudanças administrativas, disputas patrimoniais, reajustes de ocupação e diferentes prioridades deixaram entidades historicamente instaladas em posições frágeis.

    Um aeroclube sem segurança de permanência dificilmente investe em hangares, salas de aula, oficinas ou aeronaves. Sem horizonte, administra apenas a sobrevivência do mês seguinte.

    Regulação mais profissional, porém onerosa

    Atualmente, uma pessoa jurídica que pretenda oferecer os cursos previstos nos RBAC nº 61, 63 ou 65 deve, ressalvadas as exceções regulamentares, ser certificada como Centro de Instrução de Aviação Civil — CIAC.

    O RBAC nº 141 estabelece requisitos relacionados a programas de instrução, manuais, registros, instalações, aeronaves, pessoal qualificado, garantia da qualidade e gerenciamento da segurança operacional. ANAC — RBAC nº 141.

    Essas exigências possuem fundamento legítimo. Formação de pilotos requer padronização, rastreabilidade e controle de segurança. Seria errado defender um retorno à informalidade.

    O problema está em exigir modernização organizacional sem criar mecanismos para que entidades históricas, descapitalizadas e com patrimônio deteriorado consigam realizar essa transição.

    Regulação de segurança não deveria significar abandono institucional. O Estado pode fiscalizar com rigor e, simultaneamente, formular políticas que preservem a capacidade nacional de formação.

    A ausência de uma política continuada

    Talvez este seja o ponto mais grave: o Brasil deixou de tratar os aeroclubes como parte estratégica da formação de mão de obra aeronáutica.

    Durante anos, discutimos uma possível escassez de pilotos, mecânicos e instrutores sem proteger adequadamente a base em que muitos desses profissionais eram preparados.

    Em audiência realizada no Senado em 8 de abril de 2025, o ministro de Portos e Aeroportos afirmou que o governo trabalhava em um programa de fortalecimento dos aeroclubes brasileiros. O reconhecimento foi positivo, mas precisa resultar em metas, orçamento, critérios transparentes e continuidade. Senado Federal — audiência de 8 de abril de 2025.

    O setor já recebeu diagnósticos suficientes. O que falta é uma política de Estado capaz de sobreviver às mudanças de governo.

    A escola privada ocupou espaço, mas não substituiu o ecossistema

    As escolas privadas passaram a desempenhar papel indispensável na formação aeronáutica. Muitas operam com boa gestão, frota disponível, processos padronizados e foco profissional.

    A crítica ao desaparecimento da antiga rede de aeroclubes não deve ser confundida com uma crítica à iniciativa privada.

    O ponto é outro: uma empresa vende um serviço de instrução. Um aeroclube, quando corretamente administrado, pode oferecer também associativismo, convivência entre gerações, iniciação aeronáutica, atividades desportivas, preservação histórica e ligação com a comunidade.

    Quando o aluno chega minutos antes da missão e vai embora imediatamente depois do corte do motor, ele pode receber treinamento tecnicamente adequado, mas perde parte da vivência que anteriormente acontecia de maneira espontânea.

    A formação torna-se uma sequência de horas contratadas. Aprende-se a cumprir o programa, mas nem sempre há tempo ou ambiente para construir pertencimento à aviação.

    Essa diferença não é meramente romântica. Ela pode ter reflexos na cultura de segurança. Julgamento aeronáutico também se desenvolve pela observação, pela troca de experiências e pela convivência com profissionais que se encontram em diferentes fases da carreira.

    O prejuízo vai além do preço da hora de voo

    O enfraquecimento dos aeroclubes reduz as portas de entrada para jovens do interior e concentra a formação em determinados centros. Aumenta a distância entre o sonho de voar e a possibilidade econômica de realizá-lo.

    Também reduz espaços destinados à formação inicial de instrutores e à preservação de modalidades como voo a vela, paraquedismo, aeromodelismo e aviação desportiva.

    Existe ainda uma perda de infraestrutura estratégica. Um aeródromo ativo, com hangares, abastecimento, manutenção e movimento de instrução, pode servir à aviação geral, às operações médicas, aos órgãos públicos e ao desenvolvimento regional.

    Quando a atividade desaparece, a pista pode continuar fisicamente existente, mas o ecossistema que a tornava útil começa a morrer.

    Não se trata de reconstruir o passado

    Salvar os aeroclubes não significa devolver aeronaves antigas, tolerar improvisações ou reproduzir modelos administrativos que já demonstraram limitações. A recuperação precisa olhar para o futuro.

    Uma política séria deveria incluir:

    • segurança jurídica para ocupação das áreas aeroportuárias;
    • financiamento condicionado à boa governança;
    • renovação e padronização das aeronaves;
    • estímulo ao emprego de simuladores;
    • formação de gestores e instrutores;
    • estruturas compartilhadas de manutenção;
    • bolsas com critérios técnicos e sociais;
    • integração com escolas técnicas e universidades;
    • fiscalização proporcional ao risco, sem flexibilizar requisitos essenciais de segurança.

    O apoio público não pode funcionar como cheque em branco. Aeroclubes beneficiados precisam apresentar contas, indicadores de disponibilidade, resultados de formação, conformidade regulatória e desempenho de segurança.

    Preservar uma instituição histórica não significa protegê-la da responsabilidade administrativa.

    Também seria possível desenvolver redes regionais. Nem todo aeroclube precisa possuir isoladamente todos os equipamentos, cursos e oficinas. Consórcios poderiam compartilhar simuladores, manutenção, compras, treinamento de instrutores e programas de segurança, reduzindo custos sem eliminar a identidade local.

    Conclusão

    O fim das estruturas dos aeroclubes brasileiros não aconteceu em uma data determinada. Foi um processo lento, produzido por custos crescentes, envelhecimento da frota, insegurança patrimonial, mudanças regulatórias e ausência de uma política pública duradoura.

    Alguns aeroclubes sobreviveram e demonstram que o modelo ainda pode funcionar. Entretanto, sobrevivência isolada não equivale à existência de um sistema nacional. O Brasil possui instituições resistentes, mas já não conta com a rede ampla e acessível que sustentou grande parte de sua formação aeronáutica.

    O prejuízo não pertence apenas aos saudosistas. Ele alcança a segurança operacional, a formação profissional, a aviação regional e a própria capacidade do país de renovar seus quadros.

    Um país que deseja ampliar sua aviação precisa cuidar do lugar onde os aviadores começam. Sem uma base forte, toda expansão será mais cara, mais concentrada e mais dependente de soluções improvisadas.

    O aeroclube do futuro não deve ser um museu do passado. Deve ser uma instituição moderna, fiscalizada, sustentável e novamente reconhecida como parte estratégica da aviação brasileira.

    Marcuss Silva Reis
    Piloto Comercial de asas fixas | Instrutor de escolas de aviação civil | Professor universitário de Ciências Aeronáuticas | Perito judicial em aviação | Economista | Pós-graduado em Ciências Aeronáuticas, Segurança da Aviação Civil e Docência do Ensino Superior | Técnico em Óptica
    Fundador do Instituto do Ar

    domingo, 26 de julho de 2026

    5年を隔てた二つの事故――LAPA 3142便とVOEPASS 2283便が示す「破られた安全防護」

     


    1999年のLAPA 3142便事故と、2024年のVOEPASS 2283便事故の間には、ほぼ25年の歳月がある。

    この間、航空機の技術、乗員訓練、安全管理システム(SMS)、運航監視、整備管理、規制当局の監督手法は大きく進歩した。それでも二つの事故は、重要な警告を航空安全の世界に突きつけている。

    技術や規則が存在していても、手順が形骸化し、警報が軽視され、組織の中で逸脱が許容されるようになれば、安全防護は機能しなくなる。

    二つの事故の直接的なメカニズムは異なる。しかし、安全を守るはずだった複数の防護層が徐々に破られていったという点では、驚くほど共通している。

    技術的には異なる二つの事故

    LAPA 3142便:フラップを展開しないまま離陸を開始

    1999年8月31日、アルゼンチンの航空会社LAPAが運航する3142便は、ブエノスアイレスからコルドバへ向かう予定だった。

    使用機はボーイング737-204C、登録記号LV-WRZだった。乗員は離陸前にフラップを所定の位置へ設定しないまま、離陸推力を投入した。

    その際、離陸形態警報装置(Takeoff Warning System:TOWS)が作動し、機体が正しい離陸形態になっていないことを知らせた。しかし、乗員は離陸を継続した。

    アルゼンチン民間航空事故調査委員会(JIAAC)は、フラップの展開を失念したことと、離陸形態警報を適切に扱わなかったことを事故の直接的原因としている。この事故では、地上の2人を含む65人が死亡した。JIAAC最終報告書

    VOEPASS 2283便:着氷、性能低下、制御喪失

    2024年8月9日、ブラジルの航空会社VOEPASSが運航する2283便は、カスカヴェルからサンパウロ・グアルーリョスへ向かっていた。

    使用機はATR 72-500、登録記号PS-VPBだった。同機は高度約17,000フィートで、強い着氷が予想される気象条件に遭遇した。

    ブラジル航空事故調査・防止センター(CENIPA)の最終報告書は、機体除氷システムの不具合、整備上の問題、飛行計画、意思決定、CRM、組織文化、管理監督など、複数の要因を指摘している。

    乗員は速度低下や性能劣化を示す複数の警報を受けたが、必要な手順は十分に実行されなかった。機体は失速し、制御を喪失した。搭乗していた62人全員が死亡した。CENIPA英語版最終報告書

    航空機は警告していた

    LAPA 3142便では、離陸推力を投入した時点でTOWSが作動した。まだ離陸中止が可能な段階で、乗員には操作を止め、機体の状態を確認する機会があった。

    VOEPASS 2283便でも、航空機性能監視システム(APM)が低速や性能劣化に関する警報を繰り返し発していた。

    つまり、両事故とも航空機の警報システムは危険の存在を示していた。

    しかし、警報装置は、それだけで事故を防ぐことはできない。警報が認識され、正確に解釈され、訓練された行動へ直ちに結びついて初めて安全防護として機能する。

    過去に同じ警報を経験しても重大な結果が起きなかった場合、乗員や組織は警報に慣れてしまうことがある。異常が日常化し、警戒心が低下するのである。

    手順は存在していたが、運航を支配できなかった

    LAPAにはチェックリストと離陸中止手順が存在していた。しかし、私的な会話がチェックリストの実施と重なり、操縦室の注意が分散していた。

    不要な会話を排除する「ステライル・コックピット」の原則が守られず、フラップ設定の確認が完了しないまま離陸が開始された。

    VOEPASSにも、機体除氷システムの不具合やAPM警報に対応するためのクイック・リファレンス・ハンドブック(QRH)があった。CENIPAは、それらの手順が適切に実行されなかったと判断している。

    ここに共通するのは、手順の不在ではない。

    問題は、承認された手順が実際の運航行動をコントロールする力を失っていたことにある。

    航空会社は、完全なマニュアル、最新の訓練記録、承認されたSMSを備えていても、日常の運航がそれらから離れていれば、安全な組織とは言えない。

    事故前から重要な情報は存在していた

    LAPAの調査では、機長の過去の評価記録に、操縦室内の連携、飛行形態の設定、緊急時の反応、手順の理解などに関する指摘が繰り返し記録されていた。

    しかし、それらの情報は、事故便に至る前に十分な是正措置へ結びつかなかった。

    VOEPASSでは、機体除氷システムの不具合が事故以前の飛行でも発生していたが、テクニカルログに正式に記録されていなかった。

    記録がなければ、整備部門や運航部門は、修理、機材変更、運用許容基準(MEL)の適用、飛行経路の変更といった対策を正式に検討できない。

    両事故では、危険を示す情報が事故便以前から存在していた。問題は、その情報を組織として収集し、共有し、評価し、運航上の決定へ変換できなかったことである。

    正式な経路を通らない情報は、安全防護として機能しない。

    インフォーマルな慣行が安全管理に入り込んだ

    LAPAの操縦室音声記録には、飛行と無関係な会話がチェックリストの実施と混在していたことが記録されている。

    VOEPASSの報告書は、操縦士、整備士、管理部門など、複数の階層に広がるインフォーマルな組織文化を指摘した。この文化は、柔軟な人間関係を生む一方で、即興的な判断、規則の緩和、正式な記録を避ける行動を許容していた。

    良好な人間関係そのものが危険なのではない。

    危険なのは、口頭の連絡が正式な整備記録を代替し、個人的な了解がMELや承認手順より優先されることである。

    航空安全には信頼が必要だが、同時に追跡可能性も必要である。

    逸脱の常態化

    CENIPAはVOEPASSについて、「逸脱の常態化(normalization of deviation)」に相当する組織的問題を明確に指摘している。

    不適切な行動や警報の軽視が過去に重大な結果を生まなかったため、それらが徐々に許容され、通常の行動として受け入れられていった。

    LAPAの報告書は同じ現代的表現を使用していない。しかし、繰り返されていた操縦上の問題、規律の低下、十分でなかったフォローアップは、同様の問いを投げかける。

    逸脱の常態化は、一般的に次のように進む。

    1. 例外的に規則が省略される
    2. 重大な結果が起きない
    3. 同じ省略が繰り返される
    4. 異常が慣行になる
    5. 慣行が安全だと誤認される
    6. 最後に残った防護層が破られる

    昨日事故が起きなかったことは、今日の運航が安全である証明にはならない。

    CRM訓練と実際の操縦室行動

    LAPAはCrew Resource Management(CRM)訓練を実施していた。それでも事故便では、注意の分散、不適切なコミュニケーション、クロスチェックの失敗、警報に対する共同対応の欠如が見られた。

    VOEPASSでも、CENIPAはタスク管理、乗員間コミュニケーション、脅威への共同対応に問題があったとしている。

    CRMは、講習を修了しただけでは成立しない。

    その成果は、実際の操縦室で確認されなければならない。

    • PFとPMの役割分担が明確か
    • モニタリングが継続されているか
    • 副操縦士が危険な判断に異議を述べられるか
    • 機長が反対意見を受け入れられるか
    • どちらかの乗員が不安全な運航を止められるか

    訓練記録は資格を証明する。安全文化は、その訓練が実際の行動を変えたかどうかを示す。

    管理監督は運航の実態を把握していたか

    LAPAでは、過去の評価に複数の問題が記録されていたが、それらが十分な介入へつながらなかった。訓練や審査記録にも不完全な部分があった。

    VOEPASSでは、管理監督の不十分さが事故への寄与要因として分類された。運航部門と整備部門のインフォーマルな慣行を抑制できず、逸脱が受け入れられる環境が形成されていた。

    管理監督とは、書類がそろっているか確認することだけではない。

    重要なのは、実際の運航がどのように行われているかを把握することである。

    • シミュレーター外でも手順は守られているか
    • 不具合は正式に記録されているか
    • 繰り返される警報は調査されているか
    • MELは適切に適用されているか
    • 訓練で発見された問題は再評価されているか
    • 安全上の懸念を報告しやすい環境があるか

    書類上の適合性と、実運航上の安全性は必ずしも同じではない。

    規制当局に関する重要な違い

    二つの報告書は、規制当局の監督について同一の結論を出していない。

    VOEPASSの事故では、CENIPAはブラジル国家民間航空庁(ANAC)の対応を寄与要因として分類した。事故前の検査で複数の不適合が確認されていたものの、危険な慣行の継続を防ぐには不十分だったと評価している。

    一方、LAPAの報告書は、当時存在していた会社と国家監督機関の規則・手順が遵守されていれば、事故を防止できたとしている。

    したがって、規制当局が両事故で同じ役割を果たしたと断定することはできない。

    共通しているのは、警報、手順、訓練、記録、監督という複数の防護層が、適切な行動へ結びつかなかったことである。

    日本の航空安全コミュニティへの示唆

    日本の航空界は、手順遵守、整備品質、報告制度、組織的な安全管理を重視してきた。それでも、LAPAとVOEPASSの教訓は日本と無関係ではない。

    高度に規律化された組織でも、次のような兆候には注意が必要である。

    • 「以前も問題なかった」という説明
    • 同じ警報や不具合への慣れ
    • 正式記録より口頭連絡を優先する慣行
    • 訓練上の指摘が組織横断的に共有されない状態
    • 現場が運航停止を提案しにくい雰囲気
    • SMSが書類管理中心になる傾向

    安全報告制度、フライトデータモニタリング、整備記録、CRM評価、内部監査は、それぞれを独立させるだけでは不十分である。

    複数の情報を結びつけ、事故になる前の「弱い兆候」を発見する能力が求められる。

    結論

    25年という時間、航空機技術の進歩、規則の強化だけでは、似た組織的失敗を完全に防ぐことはできなかった。

    LAPA 3142便では、離陸形態警報が作動した。VOEPASS 2283便では、性能低下を示す警報が繰り返された。どちらの航空機も危険を知らせていた。

    しかし、その警告に至る前から、別の警告が組織内部に存在していた。

    不完全な記録、繰り返される問題、手順からの逸脱、弱い監督、CRMと実際の行動の乖離である。

    最終的な操作上の誤りだけを「原因」として終わらせれば、その誤りを可能にした組織条件は残り続ける。

    航空安全の進歩は、新しい技術を導入することだけではない。弱い兆候を見逃さず、不都合な情報を正式に記録し、必要であれば運航を止めることのできる組織をつくることである。

    二つの航空機は警告を発していた。より深い問いは、組織がその警告を聞く能力をすでに失っていなかったか、ということである。


    マーカス・シルバ・レイス(Marcuss Silva Reis)
    固定翼事業用操縦士|民間航空学校教官|航空科学大学教員|航空分野の司法鑑定人|経済学士|航空科学・民間航空安全・高等教育学の大学院課程修了|眼鏡光学技術者
    Instituto do Ar 創設者

    Twenty-Five Years Apart: What LAPA 3142 and Voepass 2283 Reveal About Broken Safety Barriers

     




    Nearly 25 years separate the accident involving LAPA Flight 3142 in Argentina from the crash of Voepass Flight 2283 in Brazil. During that period, commercial aviation advanced significantly in aircraft technology, crew training, safety management, data monitoring and regulatory oversight.

    Yet both accidents reveal a disturbing reality: technology and regulations cannot prevent an accident when warnings are underestimated, procedures lose their authority and organizational defenses are gradually weakened.

    The two events were technically very different. LAPA 3142 involved a Boeing 737-200 attempting to take off without its flaps properly configured. Voepass 2283 involved an ATR 72 operating in severe icing conditions while experiencing problems with its airframe de-icing system.

    The similarity is not in the aircraft or the immediate technical mechanism. It is found in the progressive failure of the barriers that should have stopped each accident sequence.

    LAPA Flight 3142: a takeoff without flaps

    On August 31, 1999, LAPA Flight 3142 was scheduled to operate from Buenos Aires to Córdoba. The aircraft was a Boeing 737-204C, registration LV-WRZ.

    During the preparation for departure, the flight crew failed to extend the flaps to the required takeoff position. When takeoff thrust was applied, the Takeoff Warning System — TOWS — generated an aural warning indicating that the aircraft was not correctly configured.

    The crew continued the takeoff.

    Without the flaps in the planned position, the aircraft could not achieve the expected takeoff performance. The official investigation conducted by Argentina’s Junta de Investigaciones de Accidentes de Aviación Civil — JIAAC — identified the failure to extend the flaps and the crew’s disregard of the configuration warning as the immediate cause of the accident. The event resulted in 65 fatalities, including two people on the ground. JIAAC final report.

    The investigation also found that non-operational conversations had been mixed with checklist execution. It described poor cockpit discipline, distraction and the loss of a sterile cockpit environment during a critical phase of flight.

    Voepass Flight 2283: icing, degraded performance and loss of control

    On August 9, 2024, Voepass Flight 2283 was operating from Cascavel to São Paulo–Guarulhos. The aircraft was an ATR 72-500, registration PS-VPB.

    The aircraft encountered atmospheric conditions favorable to severe icing while cruising at Flight Level 170, approximately 17,000 feet. According to Brazil’s Center for Investigation and Prevention of Aeronautical Accidents — CENIPA — the aircraft had experienced problems with its Airframe De-Icing system.

    The flight crew received multiple warnings related to low speed and degraded aircraft performance. The required procedures were not adequately carried out, performance continued to deteriorate and the aircraft eventually stalled and entered an unrecoverable loss-of-control sequence.

    All 62 occupants were killed.

    CENIPA’s final report identified contributing factors involving aircraft maintenance, weather, flight planning, decision-making, cockpit coordination, organizational processes, management supervision, safety culture and the actions of Brazil’s civil aviation regulator, ANAC. CENIPA English-language final report.

    Different technical failures, similar organizational patterns

    It would be technically incorrect to compare a flap configuration error with an icing-related loss of performance as if they were the same event.

    They were not.

    The meaningful comparison begins when we examine how each safety system responded before the aircraft reached an irreversible condition.

    In both cases:

    • relevant warning systems operated;
    • established procedures were available;
    • trained and licensed crews were in control;
    • information existed before the final loss of safety margins;
    • organizational oversight should have detected important risks;
    • the expected response did not occur;
    • successive barriers failed to stop the accident sequence.

    This is why describing either event only as “pilot error” produces an incomplete safety analysis.

    The aircraft warned the crews

    On LAPA 3142, the takeoff configuration warning sounded when thrust was applied. The crew had an opportunity to reject the takeoff, identify the configuration problem and return to the checklist.

    On Voepass 2283, the crew received repeated Aircraft Performance Monitoring — APM — warnings related to low speed and degraded performance. CENIPA concluded that the corresponding procedures were not properly followed.

    In both events, the aircraft provided information that something was wrong.

    Warning systems, however, do not protect an aircraft independently. A warning must be recognized, understood and connected to a trained response.

    If recurring alerts are routinely experienced without serious consequences, crews may gradually become less sensitive to them. What was initially recognized as abnormal can begin to feel familiar. Familiarity can then be mistaken for safety.

    Procedures existed but no longer controlled the operation

    LAPA’s crew had checklists and rejected-takeoff procedures. The checklist was nevertheless conducted amid personal conversations and divided attention. The flap item was not properly completed, and the warning did not produce an immediate rejected takeoff.

    Voepass also had procedures for an Airframe De-Icing system fault and for warnings generated by the APM. According to the final report, the applicable Quick Reference Handbook — QRH — procedures were not adequately carried out.

    This reveals a common gap between formal compliance and operational reality.

    An airline may have complete manuals, approved procedures and current training records while daily operations gradually move away from those standards.

    When that happens, the organization described in official documents is no longer the same organization operating the aircraft.

    Informality can weaken formal safety defenses

    The LAPA cockpit voice recorder revealed personal conversations during preparation, engine start and taxi. Those conversations interfered with checklist discipline and concentration.

    In the Voepass investigation, CENIPA described a broader culture of informality affecting different levels and departments. According to the report, this environment created opportunities for improvisation, permissiveness and the relaxation of safety rules.

    Informality is not automatically unsafe. Good professional relationships can improve communication and cooperation.

    The risk appears when informal practices replace formal safety processes.

    A mechanical problem mentioned verbally is not equivalent to a properly documented technical discrepancy. An informal understanding between pilots and maintenance personnel cannot replace an aircraft logbook entry. A friendly organizational environment cannot justify bypassing the Minimum Equipment List — MEL — or an approved operating procedure.

    Aviation requires trust, but it also requires traceability.

    Critical information existed before both flights

    The LAPA investigation reviewed the captain’s professional history and identified previous observations involving cockpit coordination, maneuver configuration, memory items and responses to critical situations.

    Those warning signs did not produce a sufficiently effective organizational intervention before Flight 3142.

    In the Voepass case, problems involving the Airframe De-Icing system had reportedly appeared on previous flights but were not formally entered in the Technical Logbook. Without that record, the operator lost the opportunity to apply preventive measures such as corrective maintenance, dispatch under MEL restrictions, aircraft substitution or route replanning.

    In both cases, safety-relevant information existed before the accident flight.

    The central failure was not simply the absence of information. It was the organization’s inability to collect, connect, evaluate and convert that information into preventive action.

    Information that does not move through the proper channels cannot function as a safety barrier.

    The normalization of deviation

    CENIPA’s Voepass report explicitly addressed the normalization of deviations. Repeated warnings and irregular practices that had not previously produced an accident contributed to complacency and reduced risk perception.

    The LAPA report did not use that modern safety-management concept in exactly the same way. Nevertheless, the documented repetition of performance concerns, procedural indiscipline and ineffective follow-up supports a similar analytical question: had abnormal behavior gradually become tolerated because earlier occurrences had not resulted in disaster?

    Normalization typically develops through a predictable sequence:

    1. A rule is bypassed under exceptional circumstances.
    2. Nothing serious happens.
    3. The shortcut is repeated.
    4. The deviation becomes familiar.
    5. Familiarity reduces concern.
    6. The exception becomes an informal operating standard.

    The absence of a previous accident does not prove that the practice was safe. It only means that the remaining defenses had continued to compensate for the deviation.

    Until they no longer could.

    CRM training did not guarantee effective coordination

    LAPA conducted Crew Resource Management — CRM — training. Yet Flight 3142 displayed many of the problems CRM is intended to prevent: distraction, inadequate communication, weak cross-checking and failure to respond collectively to a critical warning.

    In the Voepass case, CENIPA identified inadequate task management, communication problems and ineffective cockpit coordination as performance progressively deteriorated.

    A completed CRM course does not necessarily mean CRM principles are present in daily operations.

    The real test appears in the cockpit:

    • whether tasks are clearly divided;
    • whether the monitoring pilot remains effective;
    • whether a first officer can challenge an unsafe decision;
    • whether the captain remains open to contrary information;
    • whether abnormal indications are discussed accurately;
    • whether either pilot can stop an unsafe operation.

    Training records measure attendance and qualification. Organizational behavior determines whether that training has real authority.

    Management supervision failed to stop the drift

    In the LAPA case, previous evaluations contained repeated concerns, yet the organization’s follow-up did not prevent similar weaknesses from appearing during the accident flight. The report also identified gaps in training and inspection records.

    In the Voepass investigation, ineffective management supervision was classified as a contributing factor. Informal practices in both flight operations and maintenance created conditions in which deviations became increasingly accepted.

    Effective supervision is more than verifying paperwork. It must determine how the operation is actually being conducted.

    Management should be able to answer:

    • Are crews following procedures outside the simulator?
    • Are maintenance discrepancies being formally recorded?
    • Are recurring warnings being investigated?
    • Is the MEL being properly applied?
    • Are training deficiencies being corrected and rechecked?
    • Are operational, maintenance and safety departments sharing information?
    • Can employees report a risk without pressure to keep the aircraft flying?

    A company may appear compliant during a document review while its daily safety margins continue to deteriorate.

    Technology cannot compensate for a weak safety culture

    Between 1999 and 2024, aircraft systems became more capable, flight data monitoring expanded and Safety Management Systems became central to airline operations.

    Yet technology only provides information and additional defenses. It cannot force an organization to respect a warning, document a discrepancy or stop an unsafe operation.

    Regulations face a similar limitation.

    A regulation can define the required standard. It cannot guarantee that the standard remains influential during daily operational decisions. That depends on supervision, accountability, reporting culture and management priorities.

    Both accidents demonstrate that safety is not measured by the number of manuals, software systems or training certificates an airline possesses. It is measured by what happens when continuing the flight becomes easier than stopping it.

    An important difference in regulatory oversight

    The two reports did not reach the same conclusion regarding government oversight.

    In the Voepass investigation, CENIPA classified ANAC’s actions as a contributing factor. Previous inspections had identified technical and procedural nonconformities, but the measures adopted were considered insufficient to prevent unsafe practices from continuing.

    In the LAPA report, JIAAC stated that the regulations and procedures established by both the operator and the state oversight system would have been sufficient to prevent the accident if they had been followed.

    It would therefore be inaccurate to claim that the aviation authorities played an identical role in both cases.

    The valid comparison lies in the organizational and operational barriers: procedures existed, warning systems operated and relevant information was available, yet the system did not convert those defenses into timely action.

    The lasting lesson from LAPA and Voepass

    Twenty-five years, new technology and more extensive regulation were not enough to eliminate similar patterns of procedural drift.

    The accidents show how safety can deteriorate when:

    • warnings become routine;
    • procedures lose operational authority;
    • discrepancies are not formally recorded;
    • known performance concerns are not effectively addressed;
    • CRM exists in training but not in cockpit behavior;
    • informal practices replace traceable decisions;
    • supervision verifies documents without understanding daily operations.

    The final error may occur in the cockpit, but the conditions that make it possible are often created much earlier.

    LAPA 3142 and Voepass 2283 remind us that aviation safety cannot be preserved by technology and regulation alone. It depends on an organization’s willingness to detect weak signals, document uncomfortable facts and stop an operation before the remaining barriers are exhausted.

    The aircraft involved in both accidents issued warnings. The deeper question is whether their organizations had already stopped listening.


    By Marcuss Silva Reis
    Commercial Pilot | Civil Aviation School Instructor | University Professor of Aeronautical Sciences | Aviation Expert Witness | Economist | Postgraduate in Aeronautical Sciences, Civil Aviation Safety and Higher Education | Optical Technician
    Founder of Instituto do Ar

    Sources