A história se repete em diferentes partes do mundo. Um aeroporto é construído quando determinada região ainda possui baixa densidade urbana. A cidade cresce, aproxima-se das pistas e, algumas décadas depois, o aeroporto passa a estar cercado por residências, escolas, hospitais, comércio e grandes empreendimentos imobiliários.
O resultado é conhecido: reclamações de ruído, conflitos sobre operações noturnas, pressão por restrições, dificuldades para ampliar pistas e terminais e discussões sobre a própria permanência do aeroporto.
Congonhas é um dos exemplos brasileiros mais evidentes. Mas Londres, Nova York, Tóquio, Paris, Amsterdã e outras cidades enfrentam versões do mesmo problema.
A questão, portanto, não é simplesmente descobrir quem chegou primeiro — o aeroporto ou a cidade. A pergunta mais importante é outra:
Como evitar que o crescimento urbano comprometa uma infraestrutura aeroportuária e, ao mesmo tempo, proteger a população que vive em seu entorno?
Congonhas: a cidade chegou até a pista
Quando Congonhas iniciou suas operações na década de 1930, São Paulo apresentava uma configuração urbana completamente diferente.
Com a extraordinária expansão da metrópole, bairros inteiros avançaram em direção ao aeroporto. Hoje, praticamente todas as regiões próximas às trajetórias de aproximação e decolagem encontram-se urbanizadas.
6Isso cria um paradoxo.
Congonhas possui enorme valor justamente porque está próximo das principais áreas econômicas de São Paulo. Essa mesma localização, entretanto, limita sua expansão e aumenta a exposição da população ao ruído aeronáutico.
Esse fenômeno é conhecido internacionalmente como urban encroachment: o avanço progressivo da ocupação urbana sobre áreas influenciadas pelas operações aeroportuárias.
A ICAO considera o planejamento e o gerenciamento do uso do solo ferramentas fundamentais para evitar que cada vez mais pessoas passem a viver em regiões significativamente afetadas pelo ruído das aeronaves. ICAO — Land-use Planning and Management
Heathrow: quando expandir se torna extremamente difícil
O Aeroporto de Heathrow, em Londres, representa outro exemplo clássico.
Ao longo das décadas, áreas residenciais consolidaram-se ao redor do aeroporto e sob suas trajetórias.
6Hoje, qualquer grande expansão de Heathrow envolve muito mais do que engenharia aeroportuária.
É necessário discutir ruído, desapropriações, impacto ambiental, transporte terrestre, comunidades afetadas e capacidade aeroportuária.
O caso britânico demonstra uma realidade importante: quanto mais consolidada estiver a urbanização ao redor de um aeroporto, maior será o custo econômico, ambiental e político de sua expansão.
LaGuardia: o aeroporto dentro de Nova York
O Aeroporto LaGuardia, no Queens, encontra-se praticamente inserido na estrutura urbana de Nova York.
5Nesse tipo de aeroporto, o problema não está somente nas residências próximas à cerca.
As trajetórias de aproximação e saída podem distribuir o ruído por áreas urbanas consideravelmente maiores.
Existe ainda um fenômeno moderno interessante. Procedimentos RNAV e RNP permitem que aeronaves voem trajetórias extremamente precisas. Operacionalmente isso representa enorme avanço.
Entretanto, quando centenas de aeronaves passam praticamente pelo mesmo corredor todos os dias, determinadas comunidades podem receber uma concentração maior de eventos acústicos.
Ou seja, precisão de navegação e distribuição de ruído são questões que precisam ser analisadas conjuntamente.
Haneda: Tóquio escolheu medir
Haneda é outro caso particularmente interessante.
O aeroporto atende uma das maiores regiões metropolitanas do planeta e possui intensa atividade operacional.
6Quando novas trajetórias foram implementadas para aumentar a capacidade aeroportuária, as autoridades japonesas desenvolveram sistemas de acompanhamento do impacto acústico.
O governo japonês mantém estações de monitoramento de ruído relacionadas às operações de Haneda. Tokyo Civil Aviation Bureau — monitoramento de ruído de Haneda
A filosofia é simples e deveria ser considerada em qualquer grande aeroporto urbano:
planejar → implementar → medir → avaliar → corrigir quando necessário.
Não basta afirmar que determinada alteração operacional produzirá pouco impacto. É melhor medir o que realmente aconteceu.
Orly e Schiphol: o ruído ultrapassa os limites do aeroporto
Paris-Orly também acabou cercado pela expansão metropolitana parisiense.
Schiphol, em Amsterdã, apresenta configuração diferente, com grande área aeroportuária e várias pistas, mas demonstra outro aspecto do problema.
5A área patrimonial de um aeroporto pode ser enorme e ainda assim comunidades relativamente distantes permanecerem sob trajetórias de aproximação e decolagem.
Por isso, medir simplesmente a distância entre uma residência e a pista é insuficiente.
O conceito mais adequado é analisar a pegada acústica da operação e a população efetivamente exposta.
Lisboa: conveniência para o passageiro, complexidade para a cidade
O Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, talvez seja um dos casos que melhor demonstram o paradoxo dos aeroportos urbanos.
5Sua proximidade com a cidade é extremamente conveniente para o passageiro.
Mas justamente essa proximidade aumenta o potencial de conflito com a população.
Essa mesma característica explica parte do enorme valor de Congonhas e Santos Dumont:
o passageiro quer pousar perto de seu destino; a cidade precisa administrar as consequências dessa conveniência.
Alguns aeroportos perderam essa disputa
Há casos nos quais a convivência chegou ao limite e a solução escolhida foi fechar ou substituir o aeroporto.
Berlim-Tempelhof é um exemplo marcante.
5A cidade literalmente envolveu o aeroporto, que encerrou suas operações em 2008.
Mas fechar um aeroporto não representa solução simples.
A capacidade precisa ser transferida para outro local. Isso exige infraestrutura aeroportuária, acessos terrestres, investimentos e reorganização do sistema de transporte.
Por isso, fechar um aeroporto urbano deve ser considerado uma solução extrema, não uma receita universal.
Afinal, qual é a solução?
Não existe uma única medida capaz de resolver o problema.
A ICAO utiliza o conceito de Balanced Approach to Aircraft Noise Management, a Abordagem Equilibrada para o Gerenciamento do Ruído Aeronáutico.
Ela considera quatro elementos principais:
- redução do ruído na fonte;
- planejamento e gerenciamento do uso do solo;
- procedimentos operacionais para redução do ruído;
- restrições operacionais.
ICAO — Aircraft Noise e Balanced Approach
O ponto mais importante, porém, talvez esteja fora do aeroporto.
A prefeitura também faz parte da solução
Se sabemos que determinada região estará sujeita a níveis significativos de ruído aeronáutico, por que permitir que milhares de novas residências sejam construídas ali?
E por que instalar justamente nessas regiões usos particularmente sensíveis, como escolas, hospitais e casas de repouso?
É aqui que entram os Planos de Zoneamento de Ruído de Aeródromos — PZR, associados ao planejamento municipal e à legislação de uso e ocupação do solo.
O PZR não deveria existir apenas como um mapa arquivado.
Suas curvas precisam efetivamente influenciar:
Plano Diretor, licenciamento imobiliário, densidade de ocupação, localização de empreendimentos sensíveis e planejamento da expansão aeroportuária.
Quando a cidade já chegou, a solução fica muito mais cara
No caso de Congonhas, Heathrow ou LaGuardia, não existe a possibilidade prática de simplesmente apagar bairros inteiros do mapa.
A solução passa a ser uma combinação de medidas:
aeronaves mais silenciosas + procedimentos de redução de ruído + trajetórias adequadas + monitoramento acústico + tratamento acústico de edificações + controle das novas ocupações + restrições operacionais quando tecnicamente justificadas.
É possível administrar o conflito.
O que dificilmente podemos fazer é eliminar completamente suas consequências depois de décadas de urbanização.
A maior lição talvez não esteja em Congonhas
Congonhas já está cercado.
Heathrow também.
LaGuardia também.
A pergunta estratégica para o Brasil deveria ser:
Quais aeroportos brasileiros ainda possuem áreas livres em seu entorno que poderão ser ocupadas inadequadamente nas próximas décadas?
É nesses aeroportos que ainda temos oportunidade de agir.
Se conhecemos as futuras curvas de ruído, podemos reservar áreas de expansão, estabelecer usos compatíveis do solo, impedir empreendimentos residenciais inadequados e criar zonas de transição com atividades industriais, logísticas, comerciais ou outras compatíveis com a atividade aeroportuária.
Essa talvez seja a maior lição deixada pelos aeroportos urbanos do mundo.
É muito mais barato planejar hoje do que tentar desapropriar amanhã.
A tecnologia continuará produzindo aviões mais silenciosos. Procedimentos como NADP continuarão evoluindo. Sistemas de navegação permitirão trajetórias cada vez mais precisas.
Mas nenhuma dessas tecnologias consegue facilmente corrigir uma decisão urbanística tomada 40 anos antes.
Por isso, quando observamos Congonhas, Heathrow, LaGuardia, Haneda, Orly ou Schiphol, não deveríamos enxergar apenas aeroportos com problemas de ruído.
Devemos enxergar advertências para os aeroportos e cidades que ainda têm tempo de não repetir a mesma história.
Aeroporto e cidade podem coexistir.
Mas essa convivência precisa ser planejada antes que a cidade chegue à cabeceira da pista.
Marcuss Silva Reis
Piloto Comercial de asas fixas, piloto da aviação geral, perito judicial em aviação, economista e técnico em óptica. Pós-graduado em Ciências Aeronáuticas, Segurança da Aviação Civil e Docência do Ensino Superior. Ex-instrutor de escolas de aviação civil, professor universitário.
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📚 Referências e fontes de consulta
ICAO — International Civil Aviation Organization. Airport Planning Manual — Part 2: Land Use and Environmental Management (Doc 9184).
ICAO. Balanced Approach to Aircraft Noise Management.
ICAO. Land-use Planning and Management around Airports.
ANAC — Agência Nacional de Aviação Civil. RBAC nº 161 — Planos de Zoneamento de Ruído de Aeródromos (PZR).
