Um olhar econômico sobre o custo da AVGAS e seus impactos na formação de pilotos
A gasolina de aviação, conhecida como AVGAS, é um combustível essencial para a base de toda a aviação civil: a aviação a pistão, responsável pela formação de pilotos, pela aviação agrícola, pelo táxi-aéreo leve e por boa parte das operações regionais. Apesar de sua importância estratégica, o Brasil convive há décadas com um paradoxo: produz gasolina de aviação e exporta excedentes a preços internacionais, enquanto o operador nacional paga um dos combustíveis mais caros do mundo.
Esse cenário não é apenas uma questão de mercado. Ele afeta diretamente a formação de pilotos, a sobrevivência dos aeroclubes e o custo-hora de voo, com reflexos em toda a cadeia da aviação.
Um combustível de nicho, mas estratégico
Diferentemente do querosene de aviação (QAV), usado por aeronaves a jato e responsável por quase todo o consumo aeronáutico do país, a AVGAS representa cerca de 1% do mercado de combustíveis de aviação.
Esse pequeno volume tem consequências diretas:
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Produção em escala reduzida
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Distribuição mais cara
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Menor competição
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Logística especializada
Mas, apesar de representar apenas uma fração do consumo, a AVGAS sustenta a base da pirâmide da aviação: a formação de pilotos.
Sem AVGAS acessível, o sistema começa a apresentar gargalos.
O custo de produção e o preço de exportação
A produção da gasolina de aviação no Brasil é concentrada principalmente na refinaria da Petrobras em Cubatão, em São Paulo. O processo envolve:
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Refino de frações leves do petróleo
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Ajuste de octanagem
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Aditivação específica
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Controle de qualidade aeronáutico rigoroso
O custo estimado de produção da AVGAS na refinaria gira em torno de:
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US$ 0,60 a US$ 0,90 por litro
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Aproximadamente R$ 3,00 a R$ 4,50 por litro na saída da refinaria
Quando há excedente, parte desse combustível é exportada para mercados da América Latina e Caribe por:
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US$ 1,00 a US$ 1,40 por litro
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Aproximadamente R$ 5,00 a R$ 7,00 por litro
Ou seja, o produto brasileiro é competitivo no mercado internacional.
O preço na bomba: o verdadeiro problema
O contraste aparece quando se observa o preço pago pelo operador brasileiro.
Na prática, a gasolina de aviação é vendida nos aeroportos do país por:
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R$ 12,00 a R$ 15,00 por litro em grandes centros
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R$ 16,00 a R$ 22,00 por litro em aeroportos regionais
Em alguns casos, o preço final chega a ser quatro vezes maior que o custo de produção.
Esse aumento ocorre por fatores como:
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ICMS estadual
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Margens de distribuição
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Transporte rodoviário em pequenas quantidades
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Estrutura concentrada de produção
O impacto direto na formação de pilotos
Para quem vive a aviação, o efeito é imediato e mensurável.
O combustível representa:
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30% a 50% do custo-hora de um avião de instrução
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O principal fator de encarecimento do curso de piloto privado e comercial
Consequências práticas:
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Redução de horas voadas
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Alongamento do tempo de formação
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Abandono de cursos por motivos financeiros
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Enfraquecimento dos aeroclubes
O resultado é um efeito em cadeia:
Combustível caro → menos alunos → menos pilotos formados → escassez futura de mão de obra.
O paradoxo brasileiro
A situação pode ser resumida em uma frase:
O Brasil produz gasolina de aviação a custo competitivo, exporta excedentes a preço internacional e vende internamente a valores muito superiores.
Isso revela que o problema não está apenas no custo industrial, mas na estrutura de mercado, logística e tributação.
Uma questão estratégica, não apenas comercial
A gasolina de aviação não deve ser vista apenas como um produto de mercado. Ela é um insumo estratégico para a formação de mão de obra aeronáutica.
Países com forte tradição aeronáutica, como os Estados Unidos, mantêm:
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Ampla rede de distribuição de AVGAS
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Forte concorrência entre fornecedores
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Preços relativamente acessíveis
O resultado é uma formação de pilotos mais barata e dinâmica.
No Brasil, o custo elevado cria uma barreira de entrada para novos profissionais, o que, a médio e longo prazo, pode afetar:
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Companhias aéreas
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Táxi-aéreo
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Aviação regional
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Segurança operacional
Caminhos possíveis
Algumas medidas poderiam reduzir o custo da AVGAS no país:
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Revisão tributária
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ICMS diferenciado para combustível de instrução
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Ampliação da concorrência
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Facilitação da importação de AVGAS
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Logística multimodal
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Distribuição por dutos ou cabotagem em regiões estratégicas
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Incentivo a combustíveis alternativos
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MOGAS certificada
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AVGAS sem chumbo (100UL)
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Conclusão
A gasolina de aviação é um combustível de pequeno volume, mas de enorme importância estratégica. É ela que move os aviões de instrução, forma os pilotos e sustenta a base da aviação civil.
O Brasil vive hoje um paradoxo econômico: produz e exporta AVGAS a preços competitivos, mas impõe ao operador nacional um dos combustíveis mais caros do mundo.
Resolver essa equação não é apenas uma questão de mercado. É uma política de formação de mão de obra, desenvolvimento regional e segurança da aviação.
Porque, no fim das contas, cada litro de AVGAS queimado em um aeroclube não é apenas combustível — é investimento em um futuro comandante.
