Quando o velocímetro simplesmente para
Quem voa na aviação geral sabe que alguns dos maiores aprendizados não vêm dos livros, mas das situações inesperadas que surgem durante o voo.
Em um treinamento de toque e arremetida no Aeroporto de Maricá, em um dia típico de verão — muito calor, vento forte e sol de janeiro, aconteceu uma situação que todo piloto aprende na teoria, mas poucos enfrentam na prática:
o velocímetro simplesmente deixou de funcionar.
Treinamento de pousos em vento forte
Era por volta de meio-dia, horário em que o vento costuma ficar mais forte na região.
A ideia do treinamento era justamente essa: afiar a técnica de aproximação dos alunos em fase final de instrução.
Após alguns circuitos, no quinto ou sexto pouso, resolvi aproveitar o vento forte para trabalhar melhor a minha técnica de aproximação.Falei para o aluno: Deixa eu fazer esse:Ele relaxou recostando na cadeira e la fui eu......
Entortei o avião na final para compensar o vento e alinhar corretamente com a pista.
O toque ocorreu cerca de 100 metros dentro da pista, algo esperado considerando as rajadas.
Ao iniciar a arremetida,enchi a mão (apliquei potência total).
Foi quando percebi algo estranho.
O velocímetro não reagiu
Mesmo com potência total, o velocímetro simplesmente não respondeu.
Naquele momento já não havia espaço para abortar a arremetida. A pista de Maricá não é longa, e o toque já havia ocorrido.
A solução foi imediata e instintiva.
Baixei levemente o nariz da aeronave para manter uma atitude que indicasse ganho de velocidade, mesmo sem a indicação do instrumento.
Reduzi a potência para cerca de 2400 RPM e mantive uma subida suave.
A aeronave estava respondendo normalmente.
Isso era um bom sinal.O aluno não dava um pio,ficou tenso,(eu também) mas o voo era meu e o responsável pela lambança ou sucesso era exclusimante meu.....
Decisão operacional
Durante a subida avaliei as opções.
Se voltasse imediatamente para Maricá, provavelmente ficaria preso no aeródromo aguardando manutenção.
Como a aeronave estava controlável, decidi seguir para o Aeroporto Santos Dumont (SBRJ).
Subi até 1500 pés e contatei o Controle Rio já próximo da região de Itaquatiara.
Foi feita coordenação com a Torre do Rio, e declarei emergência devido à ausência de indicação de velocidade.
Aproximação sem indicação de velocidade
Inicialmente solicitei aproximação direta para a pista 02.
Mas naquele dia o vento também estava forte no Rio.
Quem conhece o Santos Dumont sabe que a cabeceira 02 pode ser bastante turbulenta em determinadas condições de vento.
Sem velocímetro, isso poderia complicar a aproximação.
Decidi então cancelar a aproximação direta e solicitar entrada na perna do vento da pista 20.
Era uma opção mais estável.
Voar sem velocímetro
A tensão existia, naturalmente.
Mas havia um fator importante: eu voava frequentemente o PT-LOI naquela época e conhecia bem o comportamento da aeronave.
Conduzi a aproximação utilizando:
-
atitude da aeronave
-
potência
-
sensação aerodinâmica
-
referências visuais
Métodos clássicos ensinados na instrução básica.
O pouso ocorreu perfeitamente.
Mais um voo concluído.
Mais uma lição da aviação.
A causa da pane
Após a inspeção da aeronave descobrimos o motivo da falha.
Terra havia entrado no tubo de Pitot, bloqueando a pressão dinâmica responsável pela indicação de velocidade.
Esse tipo de pane pode ocorrer por:
-
poeira
-
insetos
-
sujeira acumulada no solo
-
falta de proteção no pitot durante o estacionamento
O que esse episódio ensina aos pilotos
Esse caso reforça algumas lições importantes da aviação geral:
✔ conhecer profundamente a atitude de voo da aeronave
✔ não depender exclusivamente dos instrumentos
✔ utilizar potência e atitude como referência
✔ manter calma para tomar decisões
Na aviação, muitas vezes a diferença entre um incidente e um acidente está na capacidade do piloto de interpretar o comportamento da aeronave.
Conclusão
Hoje, ao observar muitos acidentes na aviação geral, lembro de algumas situações como essa.
Momentos em que experiência, treinamento, um pouco de sorte e — para muitos pilotos — a mão do Criador ajudam a transformar um problema sério em apenas mais uma história da instrução de voo.
Naquele dia em Maricá, o velocímetro parou.
Mas o aprendizado continuou para o instrutor e para o aluno.
Marcuss Silva Reis
