Introdução
Tradicionalmente, quando se fala em produção aeroportuária, o foco recai quase exclusivamente sobre a carga aérea. No entanto, essa visão é incompleta. O passageiro também é parte fundamental da produção aeroportuária, pois gera demanda, receita, fluxo econômico e necessidade de escoamento eficiente. Assim, a multimodalidade de transportes deve ser analisada não apenas sob a ótica das mercadorias, mas também da mobilidade do passageiro.
Produção aeroportuária: uma visão ampliada
A produção aeroportuária moderna é composta por dois grandes fluxos:
✈️ Produção de cargas
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Exportação e importação
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Correio e encomendas expressas
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Insumos industriais e perecíveis
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Produtos de alto valor agregado
👥 Produção de passageiros
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Viagens a negócios
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Turismo
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Mobilidade regional e nacional
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Conexões intermodais (avião + outros modais)
O passageiro não é apenas um usuário do sistema, mas um ativo econômico em movimento, cujo deslocamento eficiente impacta diretamente a produtividade do aeroporto e da região atendida.
O passageiro como parte do escoamento da produção
Sob a ótica da economia do transporte, o passageiro:
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Gera receita direta (tarifas aeroportuárias, bilhetes)
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Gera receita indireta (comércio, serviços, hotelaria)
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Ativa cadeias produtivas regionais
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Exige infraestrutura logística integrada
Se o acesso ao aeroporto é ineficiente, o sistema perde competitividade, mesmo que a infraestrutura aérea seja moderna.
Multimodalidade aplicada ao passageiro
A multimodalidade de transportes aplicada ao passageiro envolve a integração do transporte aéreo com:
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Transporte rodoviário (ônibus intermunicipais, rodovias)
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Transporte ferroviário (metrô, trens regionais)
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Transporte urbano de alta capacidade
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Transporte aquaviário (em cidades costeiras ou ribeirinhas)
Essa integração reduz:
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Tempo porta-a-porta
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Custo total da viagem
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Congestionamentos no entorno aeroportuário
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Impactos ambientais
Aeroportos como nós de mobilidade e logística
Aeroportos eficientes deixam de ser apenas terminais aéreos e passam a funcionar como nós multimodais, concentrando:
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Fluxo de passageiros
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Fluxo de cargas
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Serviços logísticos
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Mobilidade urbana e regional
Esse conceito está alinhado aos modelos de Aerotrópole e Airport City, onde o aeroporto se torna um organizador territorial do desenvolvimento econômico.
Integração passageiros + cargas: ganhos sistêmicos
Quando cargas e passageiros são tratados como partes da mesma produção:
✅ Há melhor planejamento de acessos
Rodovias, ferrovias e transporte urbano passam a ser pensados de forma integrada.
✅ O aeroporto amplia sua área de influência
A região atendida cresce, fortalecendo o turismo, a indústria e o comércio.
✅ O sistema se torna mais resiliente
Menor dependência de um único modal reduz riscos operacionais.
O desafio brasileiro
No Brasil, ainda persiste:
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Forte dependência do transporte rodoviário
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Baixa integração ferroviária com aeroportos
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Planejamento urbano dissociado da aviação civil
Órgãos como a ANAC e o Ministério dos Transportes têm papel central na formulação de políticas que reconheçam o passageiro como parte da produção aeroportuária, e não apenas como usuário final.
Multimodalidade, sustentabilidade e qualidade do serviço
Ao integrar o passageiro na lógica da produção aeroportuária, a multimodalidade:
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Reduz emissões de CO₂
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Melhora a experiência do usuário
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Aumenta a pontualidade do sistema
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Eleva o padrão de serviço do transporte aéreo
Um aeroporto acessível, conectado e eficiente produz mais valor econômico do que um aeroporto isolado.
Conclusão
A multimodalidade de transportes no escoamento da produção aeroportuária precisa reconhecer que passageiros e cargas são partes indissociáveis do mesmo sistema produtivo. Ignorar o passageiro como ativo logístico é comprometer a eficiência do aeroporto e o desenvolvimento regional.
O futuro da aviação civil passa por aeroportos que integrem mobilidade, logística e economia, tratando o passageiro não como custo, mas como elemento central da produção aeroportuária.
