Excursão de pista: quando um avião ultrapassa os limites da segurança
A excursão de pista (runway excursion) é uma das ocorrências mais comuns na aviação mundial. O termo descreve situações em que uma aeronave sai dos limites laterais da pista ou ultrapassa o seu final durante o pouso ou decolagem.
Apesar de muitas excursões resultarem apenas em danos materiais, esse tipo de evento pode rapidamente evoluir para acidentes graves, especialmente quando existem obstáculos próximos à área da pista.
Segundo estudos da ICAO, Flight Safety Foundation e NTSB, as excursões de pista representam aproximadamente 20% a 30% dos acidentes da aviação comercial, sendo mais frequentes durante o pouso.
Esse fenômeno ocorre em todas as categorias da aviação:
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aviação comercial
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jatos executivos
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aviação geral
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treinamento de pilotos.
O que caracteriza uma excursão de pista
Uma excursão de pista pode ocorrer de duas formas principais:
Overrun
Quando a aeronave ultrapassa o final da pista por não conseguir parar dentro da distância disponível.
Veer-off
Quando a aeronave sai lateralmente da pista, geralmente durante o pouso ou corrida de decolagem.
Ambos os cenários podem resultar de uma combinação de fatores técnicos, ambientais e humanos.
Os fatores mais comuns nas excursões de pista
Diversos estudos de segurança operacional mostram que algumas condições aparecem repetidamente nesses eventos:
Aproximação instável
Quando a aeronave chega à final com:
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velocidade acima da referência
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razão de descida elevada
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configuração inadequada.
Pouso longo
Se o toque ocorre muito além da zona de toque, a distância restante para parar pode se tornar insuficiente.
Pista contaminada
Água, neve, gelo ou borracha acumulada reduzem significativamente a eficiência de frenagem.
Vento de cauda
Mesmo pequenas componentes de vento de cauda podem aumentar muito a distância necessária para parar.
Decisão tardia de arremeter
Esse é um dos fatores humanos mais frequentes.
O piloto percebe que a aproximação não está ideal, mas decide continuar mesmo assim.
Cinco acidentes documentados de excursão de pista
Ao longo da história da aviação, vários acidentes importantes ocorreram após aeronaves ultrapassarem os limites da pista. Esses eventos ajudaram a aperfeiçoar procedimentos e infraestrutura aeroportuária.
1. TAM Linhas Aéreas – Congonhas (2007)
Em 17 de julho de 2007, um Airbus A320 da TAM Linhas Aéreas ultrapassou o final da pista do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
A aeronave não conseguiu desacelerar adequadamente após o pouso em pista molhada e acabou atravessando a avenida Washington Luís, colidindo com um prédio da companhia aérea.
O acidente resultou em 199 vítimas fatais, tornando-se um dos mais graves da aviação brasileira.
A investigação conduzida pelo CENIPA identificou vários fatores contribuintes, incluindo:
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pista molhada
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ausência de sulcos (grooving) naquele momento
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configuração incorreta de potência em um dos motores.
Esse acidente levou a mudanças importantes na infraestrutura e nos procedimentos operacionais em Congonhas.
2. American Airlines – Chicago Midway (2005)
Em 8 de dezembro de 2005, um Boeing 737-700 da American Airlines não conseguiu parar após o pouso no Aeroporto Chicago Midway, durante forte nevasca.
A aeronave ultrapassou o final da pista e acabou atingindo veículos em uma rua próxima ao aeroporto.
O NTSB concluiu que os fatores contribuintes incluíram:
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pista contaminada por neve
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cálculo inadequado da distância de parada
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frenagem limitada nas condições meteorológicas.
Esse acidente reforçou a importância da avaliação precisa da performance de pouso em pistas contaminadas.
3. Air France – Toronto (2005)
Em 2 de agosto de 2005, o Airbus A340 do voo Air France 358 ultrapassou o final da pista no Aeroporto de Toronto Pearson durante uma tempestade severa.
A aeronave desceu um barranco após sair da pista e pegou fogo.
Apesar da gravidade da ocorrência, todos os 309 ocupantes sobreviveram, graças à rápida evacuação da aeronave.
A investigação do Transportation Safety Board of Canada apontou fatores como:
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pouso longo
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condições meteorológicas severas
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decisão tardia de arremeter.
4. Southwest Airlines – Chicago Midway (2018)
Em 2018, um Boeing 737 da Southwest Airlines saiu lateralmente da pista durante o pouso em Chicago Midway em condições de neve.
A aeronave perdeu aderência e deslizou para fora da pista durante a frenagem.
O incidente não causou vítimas, mas destacou novamente os riscos associados a:
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pistas contaminadas
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redução da aderência
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controle direcional em condições adversas.
5. Gulfstream G-IV – Bedford (2014)
Em 31 de maio de 2014, um Gulfstream G-IV não conseguiu decolar adequadamente no Aeroporto Hanscom Field, em Bedford, Massachusetts.
A aeronave ultrapassou o final da pista e pegou fogo.
A investigação do NTSB concluiu que a tripulação não realizou corretamente o checklist de controles de voo, resultando em comandos travados.
Esse acidente destacou a importância do rigor no cumprimento dos procedimentos antes da decolagem.
Como a aviação tenta evitar excursões de pista
Para reduzir esse tipo de ocorrência, aeroportos e fabricantes desenvolveram várias medidas de segurança.
Uma das mais eficazes é o EMAS (Engineered Materials Arresting System).
O EMAS é uma área de escape construída com um material especial que se rompe sob o peso da aeronave, ajudando a pará-la rapidamente.
Esse sistema já evitou vários acidentes graves em aeroportos dos Estados Unidos.
A decisão que define tudo
No cockpit, muitas excursões começam da mesma forma:
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a aproximação não está perfeita
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a pista parece curta
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o vento está difícil
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a velocidade está um pouco alta.
Nesse momento surge uma decisão crítica:
continuar o pouso ou arremeter?
A segurança de voo ensina uma regra simples e poderosa:
Se a aproximação não estiver estabilizada, arremeter é sempre a decisão correta.
Arremeter nunca foi causa de acidente.
Persistir em uma aproximação ruim, muitas vezes, já
Marcuss Silva Reis é piloto, economista, instrutor de voo,professor e especialista em segurança da aviação civil e perito judicial.Fundador do Instituto do Ar, dedica-se a compartilhar experiências e reflexões sobre a aviação civil.

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Marcuss Silva Reis