Uma análise sob a ótica da economia e dos negócios
A discussão sobre se tripulantes são custo fixo ou variável vai além de uma simples classificação contábil. Trata-se de uma decisão estratégica que impacta segurança, produtividade, reputação da empresa e sustentabilidade do negócio.
No setor aéreo, onde a margem é apertada e os ciclos econômicos são intensos, entender a natureza desse custo é essencial.
Conceitos básicos: custo fixo x custo variável
Na economia e na contabilidade gerencial:
Custos fixos
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Não variam diretamente com a produção.
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Ex.: leasing de aeronaves, salários administrativos, seguros.
Custos variáveis
-
Aumentam ou diminuem conforme a operação.
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Ex.: combustível, taxas aeroportuárias, catering, horas extras.
A questão é: onde entram os tripulantes?
A visão contábil tradicional
Do ponto de vista estritamente contábil, a tripulação costuma ser classificada como custo variável, porque:
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Parte da remuneração depende das horas voadas.
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Há pagamento de:
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Diárias.
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Adicionais.
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Horas extras.
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A necessidade de tripulação cresce com:
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Expansão da frota.
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Aumento de frequências.
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Crescimento da demanda.
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Ou seja, mais voos = mais tripulantes necessários.A visão econômica e estratégica
Sob a ótica da economia dos negócios, a realidade é diferente.
Tripulantes têm características de custo fixo estratégico
Porque:
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Formação longa e cara
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Um piloto comercial pode levar anos para atingir os requisitos mínimos.
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O investimento pode chegar a dezenas ou centenas de milhares de dólares.
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Certificação regulatória
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Treinamentos obrigatórios.
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Simuladores.
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Checagens periódicas.
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Baixa elasticidade de oferta
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Não é possível aumentar rapidamente o número de pilotos no mercado.
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A oferta responde lentamente à demanda.
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Impacto direto na segurança
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Experiência e estabilidade de tripulação influenciam a operação.
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O conceito de custo semi-fixo
Na prática, o custo com tripulantes é melhor classificado como:
Custo semi-fixo (ou escalonado)
Porque:
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Existe um número mínimo de tripulantes necessário para operar a malha.
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Mesmo com redução de voos, a empresa precisa manter:
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Tripulações de reserva.
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Instrutores.
-
Checadores.
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Estrutura de treinamento.
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Mas quando a operação cresce:
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É necessário contratar e treinar novas tripulações.
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O custo sobe em “degraus”, não de forma linear.
O erro estratégico de tratar tripulantes como custo puramente variável
Quando a empresa tenta ajustar tripulantes como se fossem combustível ou catering, surgem problemas:
Efeitos comuns
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Demissões em massa em crises.
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Falta de tripulantes na retomada.
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Cancelamentos por falta de tripulação.
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Aumento de custos com contratação emergencial.
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Perda de experiência operacional.
Isso foi visto globalmente no pós-pandemia.
O ciclo econômico da mão de obra na aviação
O setor aéreo vive um padrão recorrente:
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Crise econômica → demissões de tripulantes.
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Retomada da demanda → falta de profissionais.
-
Aumento de salários e bônus.
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Expansão da formação.
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Novo excesso de oferta no ciclo seguinte.
Esse fenômeno mostra que tripulantes não são um insumo comum, mas sim um recurso estratégico.
Comparação com outros custos da aviação
| Item | Natureza econômica |
|---|---|
| Combustível | Variável puro |
| Taxas aeroportuárias | Variável |
| Leasing de aeronaves | Fixo |
| Manutenção programada | Semi-fixo |
| Tripulantes | Semi-fixo estratégico |
A visão das companhias mais bem-sucedidas
Empresas que tratam tripulantes como ativo estratégico costumam:
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Investir em carreira de longo prazo.
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Manter programas de retenção.
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Evitar demissões abruptas em crises.
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Preservar cultura de segurança.
O resultado costuma ser:
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Menor rotatividade.
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Menos cancelamentos.
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Maior confiabilidade operacional.
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Melhor reputação de marca.
Conclusão
Sob a ótica contábil, tripulantes podem parecer custos variáveis.
Mas, sob a ótica econômica e estratégica, são claramente custos semi-fixos e ativos essenciais do negócio.
Companhias que não entendem essa diferença tendem a enfrentar:
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Crises de mão de obra.
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Aumento de custos operacionais.
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Perda de competitividade.
Já as que tratam tripulantes como capital humano estratégico constroem operações mais estáveis, seguras e rentáveis no longo prazo.

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Marcuss Silva Reis