O combustível de aviação pode envelhecer, sofrer contaminação e perder qualidade operacional com o tempo. E esse é um tema extremamente importante para pilotos da aviação geral, proprietários de aeronaves, aeroclubes e operadores que mantêm aeronaves longos períodos paradas.
Muitos aviadores associam panes apenas à mecânica da aeronave, mas esquecem que o combustível também faz parte crítica da segurança de voo.
Na prática, combustível degradado ou contaminado pode causar:
- perda de potência;
- funcionamento irregular do motor;
- corrosão interna;
- formação de borras e vernizes;
- obstrução de filtros;
- falhas no sistema de alimentação;
- apagamento do motor em voo;
- acidentes logo após a decolagem.
Combustível de aviação “vence”?
Sim, embora não exista uma “data de validade universal” fixa como em produtos de supermercado.
A durabilidade depende de fatores como:
- tipo de combustível;
- condições de armazenamento;
- temperatura;
- vedação dos tanques;
- presença de umidade;
- exposição ao ar;
- movimentação do combustível.
Os combustíveis mais utilizados na aviação geral são:
- AVGAS 100LL
- Jet A-1
Ambos podem sofrer degradação com o tempo.
AVGAS 100LL: mais estável, mas não eterna
A AVGAS possui estabilidade superior à gasolina automotiva, porém isso não significa que possa permanecer indefinidamente armazenada sem controle.
Em aeronaves pouco utilizadas, principalmente em hangares sujeitos a grande variação de temperatura, ocorre um dos maiores inimigos da aviação geral:
Condensação e água no combustível
Tanques parcialmente vazios favorecem formação de água por condensação.
Essa água pode:
- causar corrosão;
- interromper fluxo de combustível;
- gerar falhas de combustão;
- congelar em altitude;
- provocar perda de potência.
Por isso o teste de drenagem (“sump”) antes do voo é um procedimento vital de segurança.
JET A-1 também sofre degradação
O combustível de turbina também pode apresentar problemas quando armazenado por longos períodos.
Os principais riscos incluem:
- crescimento microbiológico;
- contaminação por fungos e bactérias;
- formação de borras;
- presença de água;
- oxidação do combustível.
Em aeronaves pouco utilizadas, o risco aumenta significativamente.
O perigo das aeronaves que ficam muito tempo paradas
Na aviação geral brasileira, muitas aeronaves passam semanas ou meses sem voar.
E isso pode trazer consequências importantes:
- envelhecimento do combustível;
- acúmulo de água;
- ressecamento de mangueiras;
- desprendimento de resíduos;
- saturação de filtros;
- deterioração do sistema de combustível.
Existe ainda um erro psicológico perigoso:
“A aeronave estava parada no hangar, então está segura.”
Nem sempre.
Aeronave parada também envelhece operacionalmente.
Atenção aos abastecimentos em aeródromos com pouco movimento
Esse é um ponto extremamente importante e muitas vezes negligenciado na aviação geral.
Em aeródromos remotos ou aeroportos com baixa movimentação operacional, o combustível pode permanecer armazenado durante longos períodos nos tanques locais ou caminhões abastecedores.
Isso aumenta o risco de:
- combustível envelhecido;
- presença de água;
- ferrugem;
- sedimentos;
- contaminação microbiológica;
- partículas em suspensão;
- degradação química.
Na prática:
combustível parado envelhece junto com o sistema que o armazena.
Tanques antigos, pouca rotatividade, drenagem inadequada e manutenção deficiente podem transformar o abastecimento em um fator de risco silencioso.
O que pilotos da aviação geral devem observar
1. Faça drenagem cuidadosa
Nunca trate o “sump” como formalidade.
Observe:
- transparência;
- cor;
- partículas;
- água;
- separação de fases.
Qualquer alteração merece investigação.
2. Atenção ao abastecimento em pistas remotas
Em aeródromos de pouco movimento:
- pergunte sobre a rotatividade do combustível;
- observe condições do caminhão abastecedor;
- verifique limpeza dos equipamentos;
- desconfie de combustível com aspecto alterado.
Na aviação geral, prevenção também depende de percepção operacional.
3. Converse com o operador local
Perguntas simples podem aumentar significativamente a segurança:
- Há quanto tempo o combustível está armazenado?
- Houve abastecimento recente?
- Existe drenagem periódica dos tanques?
- O sistema possui filtragem adequada?
4. Nunca tenha receio de rejeitar abastecimento
O piloto em comando possui autoridade para interromper qualquer abastecimento que considere inseguro.
Essa decisão pode evitar:
- falha de motor;
- perda de potência na decolagem;
- pane parcial;
- acidentes graves.
Segurança de voo começa antes da partida do motor
Diversos acidentes aeronáuticos envolveram:
- combustível contaminado;
- presença de água;
- armazenamento inadequado;
- degradação do combustível;
- falhas no sistema de alimentação.
Na maioria dos casos, o combustível não aparece sozinho como causa única, mas como parte importante da cadeia de eventos.
E justamente por isso a cultura de prevenção continua sendo uma das maiores barreiras de segurança da aviação geral.
Conclusão
Combustível de aviação não é eterno.
Mesmo combustíveis altamente controlados como AVGAS e Jet A-1 sofrem degradação quando armazenados inadequadamente ou mantidos longos períodos sem utilização.
Na aviação geral, especialmente em aeronaves pouco utilizadas ou abastecidas em aeródromos remotos, o piloto precisa desenvolver sensibilidade operacional para identificar sinais de contaminação, envelhecimento e presença de água.
Porque muitas vezes a diferença entre um voo normal e uma emergência começa antes mesmo do acionamento do motor.
Marcuss Silva Reis
Piloto Comercial – Aviões
Professor de Ciências Aeronáuticas
Perito em Aviação e Investigação de Acidentes Aeronáuticos
Economista | Técnico em Óptica
Editor do Blog Instituto do Ar

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Marcuss Silva Reis