A crise de mão de obra qualificada na aviação brasileira não surgiu de forma repentina. Ela foi anunciada há décadas. Especialistas, pilotos, instrutores, gestores e profissionais do setor alertaram repetidamente que o Brasil caminhava para um colapso silencioso na formação de aviadores, mecânicos, controladores e técnicos especializados. Mesmo assim, pouco foi feito.
O resultado agora aparece diante dos nossos olhos: empresas disputando pilotos experientes com salários elevados, bônus agressivos de contratação, propostas internacionais e um mercado completamente desequilibrado. Aviadores brasileiros altamente qualificados estão sendo absorvidos por companhias estrangeiras com enorme facilidade, enquanto o Brasil observa sua própria estrutura operacional enfraquecer.
O problema não nasceu ontem.
A mudança da antiga estrutura do DAC para a ANAC trouxe avanços regulatórios importantes em alguns aspectos, mas também coincidiu com um processo gradual de enfraquecimento dos aeroclubes — justamente a base histórica de formação da aviação brasileira. Durante décadas, os aeroclubes foram celeiros de pilotos, instrutores e profissionais que sustentaram o crescimento do setor aéreo nacional. Sem apoio estrutural, sem financiamento consistente e sem política pública de longo prazo, muitos desapareceram ou perderam capacidade operacional.
Enquanto outros países tratavam a formação aeronáutica como questão estratégica de soberania nacional, o Brasil passou anos ignorando o problema.
A aviação não forma profissionais da noite para o dia.
Comandantes experientes levam décadas para serem construídos. Instrutores precisam de vivência operacional. Mecânicos aeronáuticos exigem formação técnica rigorosa. Segurança de voo depende diretamente da experiência acumulada das pessoas que operam o sistema.
Mas a formação de mão de obra aeronáutica jamais esteve entre as prioridades dos governos brasileiros no período pós-redemocratização.
Agora, diante da escassez crescente, surge em Brasília uma proposta que muitos profissionais enxergam como extremamente preocupante: a possibilidade de ampliação da operação doméstica por empresas estrangeiras utilizando tripulações estrangeiras em território nacional.
O projeto tramita no Senado e aguarda ambiente político favorável para avançar.
Se aprovado de forma ampla e sem critérios estratégicos, poderá representar um dos maiores golpes já sofridos pela aviação civil brasileira.
Não se trata de xenofobia ou resistência à cooperação internacional. A aviação sempre foi global. O problema é outro: abrir mão da capacidade nacional de formar, empregar e manter seus próprios profissionais estratégicos.
Países sérios protegem sua infraestrutura aérea porque entendem que transporte aéreo não é apenas negócio. É integração nacional, soberania, defesa econômica e presença territorial.
O Brasil possui dimensões continentais. Depende da aviação para conectar regiões isoladas, desenvolver economias locais e integrar o território nacional. Entregar gradualmente esse sistema para estruturas externas significa perder autonomia operacional e enfraquecer ainda mais a indústria aeronáutica nacional.
A crise atual não é falta de aviso.
Ela foi construída lentamente ao longo de anos de omissão, ausência de planejamento e abandono da formação aeronáutica.
Agora começam a aparecer as consequências:
- falta de instrutores;
- dificuldade para retenção de pilotos;
- aumento do custo operacional;
- evasão de profissionais experientes;
- escolas enfraquecidas;
- dependência crescente do mercado externo.
A aviação brasileira sempre foi reconhecida internacionalmente pela qualidade técnica de seus profissionais. Pilotos brasileiros operam em companhias no Oriente Médio, Ásia, Europa e América do Norte justamente pela excelência da formação prática adquirida ao longo de décadas.
Mas nenhum país consegue sustentar excelência desmontando sua própria base de formação.
A pergunta que fica é dura:
o Brasil quer continuar sendo uma nação formadora de aviadores ou pretende se transformar apenas em mercado consumidor de transporte aéreo operado por estruturas estrangeiras?
Porque a diferença entre essas duas escolhas define o futuro da aviação nacional.
E talvez o mais grave seja perceber que ainda existem setores tratando isso apenas como debate econômico, quando na realidade estamos falando de soberania operacional, conhecimento técnico e sobrevivência de uma das áreas mais estratégicas do país.
A aviação brasileira não está acabando por falta de talento.
Está sendo enfraquecida pela ausência histórica de visão estratégica.
Marcuss Silva Reis
Economista,Piloto Comercial ,Perito em Aviação e Segurança de Voo,Professor de Ciências Aeronáuticas Editor do Blog Instituto do Ar

Perfeito Professor Marcus Reis...
ResponderExcluirEm uma situação dessa, prevista, a Universidade Estácio de Sá da um tiro no pé ao descartar os seus melhores docentes no seu curso de Ciências Aeronáutica. Absoluta falta de visão... Lamentável.