Quando o silêncio se torna um fator de risco
A aviação é uma das atividades mais seguras e regulamentadas do mundo. Pilotos, controladores de tráfego aéreo, mecânicos e demais profissionais são treinados para identificar riscos, gerenciar ameaças e tomar decisões sob pressão.
Paradoxalmente, um dos temas mais importantes para a segurança operacional ainda enfrenta resistência em muitos ambientes aeronáuticos: a saúde mental.
Embora os avanços tecnológicos tenham reduzido significativamente os acidentes causados por falhas mecânicas, os fatores humanos continuam ocupando posição de destaque nas investigações de ocorrências aeronáuticas. Ainda assim, falar sobre ansiedade, depressão, esgotamento emocional, estresse crônico ou sofrimento psicológico permanece, para muitos profissionais, um assunto cercado por receio, preconceito e estigma.
O medo de pedir ajuda
Em diversas culturas organizacionais, especialmente em ambientes historicamente associados à alta performance, existe a percepção equivocada de que admitir dificuldades emocionais é sinal de fraqueza.
Na aviação, esse receio costuma ser ainda maior.
Muitos profissionais temem que buscar apoio psicológico possa resultar em:
- Questionamentos sobre sua capacidade profissional;
- Perda de oportunidades de promoção;
- Restrições operacionais;
- Dificuldades na renovação de certificados médicos;
- Julgamentos por colegas e gestores.
O resultado é preocupante: pessoas que necessitam de apoio frequentemente optam pelo silêncio.
Saúde mental não é fraqueza
Existe uma diferença fundamental entre possuir uma condição de saúde mental e estar incapacitado para exercer uma atividade.
Da mesma forma que um piloto pode tratar hipertensão, diabetes ou uma lesão ortopédica e continuar voando sob acompanhamento médico adequado, questões relacionadas à saúde mental também podem ser identificadas, acompanhadas e tratadas.
O problema surge justamente quando o profissional acredita que não pode falar sobre o assunto.
O silêncio dificulta o diagnóstico precoce, reduz as chances de tratamento e aumenta os riscos individuais e organizacionais.
O impacto na segurança operacional
A segurança de voo depende diretamente da capacidade humana de perceber, interpretar e reagir adequadamente às situações.
Fatores como:
- Fadiga;
- Estresse prolongado;
- Privação de sono;
- Ansiedade;
- Burnout;
- Problemas familiares;
- Pressões financeiras;
podem influenciar significativamente o desempenho operacional.
Por isso, a abordagem moderna da segurança operacional reconhece que cuidar da saúde mental não é apenas uma questão de bem-estar individual, mas também um componente essencial da gestão de riscos.
O caso Germanwings e a mudança de paradigma
O acidente do voo 9525 da Germanwings, em 2015, trouxe a discussão para o centro das atenções mundiais.
A investigação revelou fragilidades nos processos de identificação, acompanhamento e comunicação de questões relacionadas à saúde mental.
A partir daquele momento, autoridades aeronáuticas, companhias aéreas e organizações internacionais passaram a investir em programas de apoio psicológico e acompanhamento de fatores humanos.
O objetivo não era criar mecanismos punitivos, mas sim construir ambientes nos quais os profissionais se sintam seguros para pedir ajuda antes que um problema se torne uma ameaça.
Peer Support Programs: uma mudança importante
Uma das iniciativas que ganharam força após a tragédia foi a implementação dos chamados Peer Support Programs (PSP).
Esses programas oferecem apoio confidencial entre profissionais treinados para acolher colegas que estejam enfrentando dificuldades pessoais ou emocionais.
A proposta é simples:
Criar um ambiente de confiança onde o profissional possa conversar antes que a situação evolua para uma crise.
Diversos estudos mostram que o suporte entre pares reduz barreiras para a busca de ajuda e fortalece a cultura de segurança.
Cultura Justa e confiança organizacional
A discussão sobre saúde mental está diretamente ligada ao conceito de Just Culture (Cultura Justa).
Uma organização madura compreende que a segurança cresce quando as pessoas se sentem seguras para relatar erros, dificuldades e preocupações sem medo de punições desproporcionais.
Isso não significa ausência de responsabilidade.
Significa compreender que o aprendizado e a prevenção são mais eficazes do que a simples punição.
Quando os profissionais confiam na organização, os riscos tendem a ser identificados mais cedo e gerenciados de forma mais eficiente.
O maior risco é não falar sobre o assunto
A aviação aprendeu, ao longo de sua história, que acidentes raramente acontecem por uma única causa.
Na maioria das vezes, eles resultam da combinação de diversos fatores que permaneceram sem tratamento.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado à saúde mental.
O problema não está em reconhecer uma dificuldade.
O verdadeiro risco está em acreditar que ela precisa permanecer escondida.
Uma cultura de segurança sólida não é aquela em que ninguém apresenta dificuldades. É aquela em que as pessoas encontram apoio para enfrentá-las antes que se transformem em ameaças operacionais.
Conclusão
O preconceito em discutir saúde mental na aviação ainda representa um desafio para o setor. No entanto, os avanços observados nos últimos anos demonstram que segurança operacional e cuidado com as pessoas caminham na mesma direção.
Promover ambientes de confiança, incentivar a busca por ajuda e tratar o tema com responsabilidade não enfraquece a aviação.
Pelo contrário.
Fortalece um dos pilares mais importantes da segurança de voo: o ser humano.
Marcuss Silva Reis
Piloto Comercial de asas fixas, perito judicial em aviação, economista e técnico em óptica. Pós-graduado em Ciências Aeronáuticas, Segurança da Aviação Civil e Docência do Ensino Superior. Membro fundador e professor do Instituto do Ar por 19 anos. Editor do Blog www.institutodoaraviacao.com.br

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