A segurança de voo permaneceu restrita por tempo demais
A grande verdade é que, durante muitos anos, o conhecimento relacionado à segurança de voo circulou dentro de um ambiente relativamente restrito.
Até a criação da ANAC e a ampliação do acesso público às informações aeronáuticas, boa parte da doutrina de segurança permanecia concentrada entre órgãos governamentais, investigadores, operadores, companhias aéreas, instituições militares e profissionais que já faziam parte do sistema.
Na minha avaliação, essa restrição foi, em certa medida, uma falha histórica — talvez até uma forma de negligência institucional em relação à necessidade de difundir a cultura de segurança para toda a comunidade aeronáutica.
A informação existia. A doutrina existia. Os conhecimentos produzidos pelas investigações também existiam. Entretanto, nem sempre chegavam com a mesma intensidade à aviação geral, às escolas de aviação, aos aeroclubes e à base da formação dos futuros profissionais.
Durante muito tempo, falou-se em segurança de voo principalmente para quem já estava inserido no meio aeronáutico.
Mas quem estava formando os novos pilotos?
Quem traduzia os conceitos técnicos para os alunos em início de carreira?
Quem aproximava a sociedade, a imprensa e os novos interessados da cultura de prevenção?
A segurança de voo não deveria ser um conhecimento reservado a pequenos círculos. Ela deveria estar presente desde a primeira aula, antes mesmo do primeiro voo.
Não se pode exigir dos neófitos a mesma doutrina de quem vive a aviação
Também não é razoável exigir de pessoas recém-chegadas à aviação o mesmo comportamento, a mesma ética profissional e a mesma compreensão doutrinária de quem possui décadas de experiência no setor.
A cultura aeronáutica não é adquirida automaticamente.
Conceitos como prevenção de acidentes, cultura justa, fatores humanos, gerenciamento de riscos, disciplina operacional, responsabilidade na comunicação e respeito ao processo investigativo precisam ser ensinados, debatidos e praticados.
Não se pode cobrar conhecimento de quem nunca teve acesso adequado a ele.
Da mesma forma, não se pode esperar que um jornalista generalista compreenda imediatamente todas as particularidades de uma investigação aeronáutica.
A aviação possui linguagem própria, elevada complexidade técnica e procedimentos que nem sempre são facilmente compreendidos por quem observa o setor de fora.
Se a doutrina permaneceu restrita durante décadas, parte da responsabilidade pela falta de compreensão pública também pertence ao próprio sistema aeronáutico.
A imprensa trabalha na velocidade da informação
O jornalismo atual opera em uma realidade marcada pela velocidade.
As notícias circulam em poucos minutos. Imagens, vídeos, relatos de testemunhas e informações preliminares chegam às redes sociais antes mesmo da publicação de comunicados oficiais.
Nesse ambiente, jornalistas precisam informar rapidamente, muitas vezes sob pressão por atualização contínua e com acesso limitado a especialistas.
Naturalmente, podem ocorrer gafes, interpretações equivocadas e erros típicos de quem não conhece profundamente a atividade aeronáutica.
É comum observar confusão entre termos como pane, emergência, incidente, acidente, queda, pouso forçado, arremetida, estol, turbulência e falha de motor.
Esses erros devem ser corrigidos.
Entretanto, a correção precisa ter caráter educativo, e não apenas punitivo ou corporativista.
Ridicularizar quem utilizou um termo incorreto pouco contribui para a disseminação da cultura de segurança. Explicar por que determinada expressão está errada e apresentar o conceito adequado produz conhecimento.
O setor aeronáutico também precisa assumir sua responsabilidade
É fácil criticar a imprensa por não conhecer aviação.
Mais difícil é reconhecer que, durante muito tempo, o próprio setor aeronáutico não se preocupou suficientemente em tornar seu conhecimento acessível.
A linguagem técnica permaneceu fechada.
Muitos relatórios eram pouco conhecidos fora dos círculos especializados.
A doutrina de segurança nem sempre ocupava o espaço necessário na formação inicial.
A aviação geral, em diversas situações, permaneceu distante dos debates mais aprofundados sobre fatores humanos, gerenciamento de riscos, cultura organizacional e prevenção de acidentes.
Portanto, existe uma contradição quando o setor restringe o conhecimento e, posteriormente, critica quem não domina aquilo que nunca foi adequadamente difundido.
Se desejamos uma imprensa mais preparada e uma sociedade capaz de compreender melhor os acidentes aeronáuticos, precisamos ampliar o acesso ao conhecimento.
Especialistas devem ocupar o espaço público
Profissionais experientes possuem um papel importante nesse processo.
Pilotos, engenheiros, mecânicos, controladores, investigadores, professores e especialistas em segurança podem contribuir traduzindo conceitos complexos para uma linguagem compreensível.
Isso não significa simplificar excessivamente a aviação nem antecipar conclusões sobre acidentes.
Significa explicar.
Significa esclarecer a diferença entre fato, evidência, hipótese e conclusão.
Significa mostrar que um relatório preliminar não é um relatório final.
Significa contribuir para que jornalistas e leitores compreendam melhor o funcionamento da investigação aeronáutica.
A segurança de voo não se fortalece pelo silêncio.
Ela se fortalece pela educação, pela transparência, pela responsabilidade e pelo compartilhamento do conhecimento.
Conclusão
Não podemos exigir que jornalistas, novos profissionais ou pessoas que estão começando a conhecer a aviação possuam imediatamente a mesma ética, a mesma doutrina e a mesma compreensão técnica daqueles que passaram décadas dentro do setor.
Esse conhecimento precisa ser construído.
Durante muito tempo, a cultura de segurança permaneceu excessivamente concentrada em determinados círculos. A informação nem sempre chegou à aviação geral e à base da formação com a amplitude necessária.
Hoje, a velocidade da informação impõe novos desafios.
Jornalistas cometerão erros. Termos poderão ser utilizados de forma inadequada. Interpretações preliminares poderão apresentar falhas.
Esses problemas precisam ser corrigidos, mas também devem ser compreendidos como parte de um ambiente no qual a informação circula muito mais rapidamente do que no passado.
A resposta não deve ser restringir o debate.
A resposta deve ser ampliar a educação aeronáutica.
Se queremos uma imprensa mais preparada, uma sociedade mais consciente e uma aviação mais segura, precisamos retirar a doutrina de segurança dos círculos fechados e levá-la às escolas, aos aeroclubes, à aviação geral, às universidades, à imprensa e ao público.
Conhecimento restrito protege pequenos grupos. Conhecimento compartilhado fortalece a segurança de todos.
Marcuss Silva Reis
Economista, piloto comercial de asas fixas, piloto da aviação geral, perito judicial em aviação e ex-instrutor de escolas de aviação civil. Pós-graduado em Ciências Aeronáuticas, Segurança da Aviação Civil e Docência do Ensino Superior.

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Marcuss Silva Reis