O coronel do Exército Álvaro Roberto Cruz Ferreira Lima, de 63 anos, morreu após cair com um parapente no mar da Praia de São Conrado, na Zona Sul do Rio de Janeiro, na tarde de sexta-feira, 28 de agosto de 2026.
Segundo o Clube São Conrado de Voo Livre (CSCVL), o parapente teria entrado em contato com uma linha de pipa revestida com cerol ou material semelhante à chamada linha chilena. A entidade informou possuir imagens da pipa e das linhas encontradas na região. Essa versão, entretanto, ainda depende da confirmação das autoridades responsáveis pela investigação.
Resgate mobilizou diferentes unidades dos Bombeiros
O Corpo de Bombeiros foi acionado às 13h53. Participaram da ocorrência equipes do 3º Grupamento Marítimo, do Grupamento de Operações Aéreas e da Coordenadoria de Embarcações de Resgate.
Álvaro foi retirado do mar e recebeu os primeiros atendimentos ainda na praia. Em seguida, foi encaminhado ao Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, já em parada cardiorrespiratória. Apesar das tentativas de reanimação, ele não resistiu.
Durante o resgate, o bombeiro militar Ari Mesquita, que estava de folga e auxiliou voluntariamente no atendimento, também precisou de assistência médica. Segundo as informações divulgadas, seu quadro era estável. O Dia
A ocorrência foi registrada na 14ª Delegacia de Polícia, no Leblon. A Polícia Civil deverá apurar as circunstâncias da queda e verificar a efetiva participação da linha de pipa no acidente. Folha de S.Paulo
Clube aponta linha cortante na área de voo
Em nota, o Clube São Conrado de Voo Livre classificou o episódio como um ato criminoso provocado pela presença de linhas de pipa com cerol ou linha chilena na área utilizada por asas-delta e parapentes.
A direção do clube afirmou que Álvaro teria ficado entre a linha e outro praticante, evitando que uma segunda pessoa fosse atingida. A entidade também informou estar providenciando a localização e a retirada das linhas da encosta.
Essas declarações constituem, neste momento, o relato do clube. Elas não representam uma conclusão oficial sobre a causa da queda.
Por que uma linha de pipa representa tanto perigo para um parapente?
Um parapente depende da integridade de sua vela e de um conjunto de linhas finas que distribuem a carga aerodinâmica entre o velame e o piloto. Qualquer interferência externa pode alterar rapidamente essa geometria.
Uma linha de pipa atravessada na trajetória pode:
- atingir diretamente o piloto;
- prender-se ao velame ou às linhas de suspensão;
- provocar cortes ou danos no tecido;
- deformar parte da asa;
- desencadear fechamento assimétrico do parapente;
- comprometer o controle direcional;
- atingir outro piloto que esteja voando próximo.
Linhas com cerol ou compostos abrasivos são ainda mais perigosas. Elas podem ser difíceis de enxergar contra o terreno, o mar ou o céu e, dependendo da tensão e do ângulo do contato, funcionam como elementos cortantes.
Em baixa altura, especialmente durante a aproximação para pouso, o piloto dispõe de pouco tempo e pouca altitude para reconhecer o obstáculo, recuperar a sustentação ou utilizar o paraquedas de emergência.
É importante destacar que essas são possibilidades técnicas gerais. Ainda não foi divulgada uma reconstrução oficial capaz de demonstrar exatamente como ocorreu o contato, qual parte do equipamento teria sido atingida e de que maneira isso levou à queda.
São Conrado é uma área tradicional de voo livre
A rampa da Pedra Bonita e a área de pouso em São Conrado formam um dos pontos mais conhecidos do voo livre brasileiro. A região recebe pilotos experientes, alunos e passageiros de voos duplos, além de concentrar operações em uma área urbana cercada por praia, encostas e edificações.
A existência de linhas de pipa próximas às trajetórias utilizadas para decolagem, voo e pouso não representa apenas um problema recreativo. Trata-se de uma interferência externa capaz de produzir consequências graves para diferentes modalidades aéreas.
Depois da ocorrência, o clube anunciou a suspensão das operações previstas para sábado, 29 de agosto, e informou que faria posteriormente uma homenagem ao coronel, quando as condições meteorológicas permitissem.
Cerol e linha chilena são proibidos no Estado do Rio
A Lei estadual nº 7.784/2017, com redação modificada pela Lei nº 8.478/2019, proíbe a fabricação, comercialização, compra, uso, porte e posse de cerol, linha chilena ou qualquer produto cortante utilizado em pipas.
A legislação também prevê apreensão dos materiais, aplicação de multas e encaminhamento dos envolvidos à delegacia quando houver acidente com vítima, sem prejuízo da possível apuração criminal. Legislação da Alerj
O Município do Rio também mantém, por meio da Lei nº 6.892/2021, uma campanha permanente de conscientização sobre os riscos das linhas cortantes. Câmara Municipal do Rio de Janeiro
A prevenção precisa alcançar a área de voo
A proibição legal, isoladamente, não impede que linhas sejam utilizadas e permaneçam estendidas em árvores, encostas, postes ou áreas abertas. Em locais onde existe atividade aérea, a prevenção exige fiscalização, comunicação com as comunidades próximas e inspeções regulares das trajetórias mais críticas.
Também é necessário criar mecanismos rápidos para que pilotos e moradores comuniquem a presença de pipas e linhas nas proximidades das rampas e áreas de pouso. Quando encontradas em encostas ou locais de difícil acesso, a retirada deve ser realizada por equipes capacitadas, sem expor voluntários a novos riscos.
Uma morte que exige resposta concreta
Álvaro Roberto Cruz Ferreira Lima foi comandante do Centro de Estudos de Pessoal e Forte Duque de Caxias entre 2013 e 2016 e diretor do Centro de Programas Integrados da Funarte entre 2020 e 2021. Também era integrante da comunidade de voo livre de São Conrado.
Sua morte não deve ser utilizada para antecipar conclusões que ainda dependem de investigação. Entretanto, o simples relato da presença de linhas cortantes em uma área tradicional de voo já exige providências imediatas.
Se a participação da linha de pipa for confirmada, não estaremos diante de uma fatalidade inevitável, mas de uma ocorrência provocada por um perigo conhecido, proibido e perfeitamente evitável.
Marcuss Silva Reis
Piloto Comercial de asas fixas | Ex-instrutor de escolas de aviação civil | Professor universitário de Ciências Aeronáuticas | Perito judicial em aviação | Economista | Pós-graduado em Ciências Aeronáuticas, Segurança da Aviação Civil e Docência do Ensino Superior
Fundador do Instituto do Ar

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Marcuss Silva Reis