O Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro — Galeão tornou-se o primeiro da América Latina autorizado a receber operações do Boeing 777-9, maior integrante da família 777X e futuro maior avião comercial bimotor do mundo.
A decisão representa um avanço importante para a infraestrutura aeroportuária brasileira. Entretanto, precisa ser corretamente compreendida: a ANAC não certificou o Boeing 777-9, mas incluiu o modelo entre as aeronaves autorizadas a operar no Galeão mediante procedimentos especiais.
A alteração no certificado do Galeão
A autorização foi estabelecida pela Portaria nº 19.779/SIA, assinada em 11 de agosto de 2026 e publicada no Diário Oficial da União em 14 de agosto.
A portaria não criou um novo certificado para o aeroporto. Ela alterou o Certificado Operacional de Aeroporto nº 006/SBGL/2015, concedido à Concessionária Aeroporto Rio de Janeiro S.A., responsável pela administração do Galeão.
Com a mudança, o certificado passou a permitir operações especiais com três grandes aeronaves:
- Boeing 747-8;
- Airbus A380;
- Boeing 777-9.
Essas operações deverão obedecer aos procedimentos especiais definidos no Manual de Operações do Aeródromo — MOPS — aprovado pela ANAC. A autorização foi concedida com fundamento no Regulamento Brasileiro da Aviação Civil nº 139, que disciplina a certificação operacional dos aeroportos. Portaria nº 19.779/SIA
Segundo a concessionária, o processo de avaliação vinha sendo conduzido com a ANAC desde 2024.
O que significa certificar um aeroporto?
A certificação operacional não se resume a verificar se a pista possui comprimento suficiente para o pouso e a decolagem de determinada aeronave.
O Certificado Operacional de Aeroporto é o documento pelo qual a ANAC autoriza o operador aeroportuário a funcionar conforme as condições, limitações e procedimentos estabelecidos no MOPS.
De acordo com o RBAC 139, o processo considera, entre outros elementos:
- características físicas das pistas e pistas de táxi;
- resistência dos pavimentos;
- geometria das áreas de movimento;
- separação entre aeronaves e obstáculos;
- posições de estacionamento;
- sinalização e iluminação;
- serviços de salvamento e combate a incêndio;
- resposta a emergências;
- treinamento das equipes;
- capacidade técnico-operacional do administrador;
- Sistema de Gerenciamento da Segurança Operacional;
- compatibilidade entre a aeronave crítica e o aeródromo.
A ANAC define uma autorização de operação especial como aquela destinada a uma aeronave ou operação mais exigente do que a normalmente delimitada pelo código de referência do aeródromo. RBAC 139 — Certificação Operacional de Aeroportos
Portanto, a inclusão do 777-9 no certificado representa o reconhecimento regulatório de que o Galeão pode receber o modelo, desde que sejam cumpridos os procedimentos e as restrições aprovados.
Uma restrição operacional importante
A Portaria nº 19.779/SIA também estabelece uma limitação específica.
Em condições meteorológicas de voo por instrumentos — IMC — fica proibido o táxi de aeronaves com letra de código de referência F pela pista de táxi B enquanto estiver ocorrendo pouso ou decolagem de aeronaves classificadas com número de código 3 ou 4 na pista 15/33.
Isso demonstra por que a autorização não deve ser tratada como uma simples liberação administrativa. Aeronaves de grande porte exigem procedimentos destinados a proteger as margens de separação, reduzir conflitos nas áreas de movimento e impedir que uma asa ou outra parte da aeronave invada uma faixa destinada à operação da pista.
Em determinados momentos, a operação do 777-9 poderá exigir coordenação adicional entre controle de tráfego aéreo, administração aeroportuária, equipes de pátio e operador aéreo.
Certificação do aeroporto não é certificação da aeronave
São processos diferentes, conduzidos por autoridades e objetivos distintos.
| Processo | O que está sendo avaliado |
|---|---|
| Certificação operacional do Galeão | Capacidade do aeroporto e de seu operador para receber a aeronave conforme infraestrutura, procedimentos, limitações e gerenciamento de riscos |
| Certificação de tipo do Boeing 777-9 | Conformidade do projeto da aeronave com os requisitos de segurança, desempenho, sistemas, estrutura e operação |
O Galeão está autorizado a receber o modelo, mas o Boeing 777-9 ainda precisa concluir sua certificação de tipo pela Federal Aviation Administration — FAA — antes de entrar regularmente em serviço.
A certificação de uma aeronave envolve análises de engenharia, ensaios estruturais, inspeções, avaliações de sistemas, fatores humanos, demonstrações de segurança e testes em voo. A FAA descreve esse processo em sete grandes fases, que vão da definição da base regulatória até a certificação e a produção. FAA — Aircraft Certification
Em julho de 2026, a Boeing informou que a frota de testes do 777-9 havia acumulado aproximadamente 1.700 voos e mais de 4.800 horas, com cerca de 50% dos testes de certificação planejados concluídos. A previsão divulgada pelo fabricante é realizar a primeira entrega em 2027. Boeing — progresso da certificação do 777-9
Consequentemente, a autorização brasileira prepara o aeroporto para uma aeronave que ainda não iniciou operações comerciais.
As dimensões do Boeing 777-9
O Boeing 777-9 possui aproximadamente 76,7 metros de comprimento e 71,8 metros de envergadura com as pontas das asas estendidas.
No solo, as pontas podem ser dobradas, reduzindo a envergadura para aproximadamente 64,8 metros. Esse sistema facilita a movimentação e o estacionamento em aeroportos projetados para versões anteriores da família 777.
O mecanismo não elimina a necessidade de avaliação aeroportuária. O comprimento da fuselagem, a distância entre os trens de pouso, os raios de curva, o deslocamento das pontas das asas, a esteira de turbulência e as exigências de atendimento em solo continuam sendo fatores relevantes.
A Boeing indica uma capacidade típica de 426 passageiros em configuração de duas classes. O número efetivo dependerá da cabine escolhida por cada companhia, podendo ser maior em arranjos de maior densidade. A aeronave será equipada com dois motores GE9X e foi desenvolvida para rotas intercontinentais de grande capacidade. Boeing — características do 777X
Quais empresas poderiam levar o 777-9 ao Galeão?
Entre as empresas que atualmente operam no Galeão, Emirates, Lufthansa e British Airways possuem encomendas do Boeing 777-9.
A Emirates é o maior cliente do programa. Em novembro de 2025, a companhia informou possuir 270 unidades do 777-9 previstas para entrega, após ampliar novamente sua encomenda. Emirates — encomenda do Boeing 777-9
A Lufthansa também é cliente de lançamento. Em maio de 2026, o primeiro 777-9 configurado para a companhia realizou seu voo inicial antes de participar de atividades relacionadas aos testes e à preparação operacional. Boeing — primeiro 777-9 da Lufthansa
Isso não significa que qualquer uma dessas empresas já tenha confirmado o emprego da aeronave no Rio de Janeiro. A escolha depende de demanda, disponibilidade de frota, planejamento de malha, custos, capacidade de passageiros e estratégia comercial.
O valor estratégico da autorização
O principal resultado da autorização é retirar uma barreira futura. Quando o Boeing 777-9 estiver certificado e disponível, uma companhia interessada em utilizá-lo no Rio de Janeiro encontrará um aeroporto que já passou pela avaliação regulatória necessária para receber o modelo.
Isso fortalece o Galeão como plataforma de voos internacionais de longo curso, especialmente em ligações de grande volume com a Europa e o Oriente Médio.
Também demonstra uma capacidade que o aeroporto já apresentou ao receber aeronaves como o Airbus A380 e o Boeing 747-8. Não se trata apenas de possuir uma pista longa, mas de manter uma estrutura operacional capaz de acomodar aviões de grande porte com procedimentos compatíveis com a segurança.
Autorização não significa operação imediata
É importante evitar a interpretação de que o primeiro 777-9 pousará no Galeão imediatamente.
Ainda serão necessários:
- conclusão da certificação da aeronave;
- entrega dos primeiros exemplares;
- treinamento de pilotos e equipes de manutenção;
- aprovação operacional das companhias;
- disponibilidade de equipamentos de atendimento em solo;
- planejamento de posições de estacionamento;
- definição de rotas comercialmente sustentáveis;
- coordenação dos procedimentos aeroportuários.
A decisão da ANAC prepara o Galeão para uma possibilidade futura. Não cria, por si só, uma nova rota nem obriga uma empresa a utilizar o modelo no aeroporto.
Conclusão
A inclusão do Boeing 777-9 no Certificado Operacional do Galeão é uma conquista relevante para a infraestrutura aeroportuária brasileira. A Portaria nº 19.779/SIA confirma que o aeroporto pode receber a aeronave mediante procedimentos especiais previstos no MOPS aprovado pela ANAC.
O aspecto mais importante não é a chegada imediata do avião, que ainda depende da certificação da FAA e das decisões comerciais das companhias. O avanço está na preparação antecipada.
Quando o maior avião comercial bimotor do mundo finalmente entrar em serviço, o Galeão já estará regulatoriamente posicionado para recebê-lo. Em um mercado internacional competitivo, essa capacidade poderá representar uma vantagem concreta para o Rio de Janeiro e para a conectividade brasileira.
Marcuss Silva Reis
Piloto Comercial de asas fixas, piloto da aviação geral, perito judicial em aviação, economista e técnico em óptica. Pós-graduado em Ciências Aeronáuticas, Segurança da Aviação Civil e Docência do Ensino Superior. Ex-instrutor de escolas de aviação civil e professor universitário.
Fontes consultadas
- Agência Nacional de Aviação Civil — ANAC. Portaria nº 19.779/SIA, de 11 de agosto de 2026, publicada no Diário Oficial da União em 14 de agosto de 2026. A norma inclui o Boeing 777-9 entre as aeronaves autorizadas a operar no Galeão mediante procedimentos especiais. Consulta ao Diário Oficial da União
- CNN Brasil. “Galeão é o primeiro da América Latina autorizado a receber o Boeing 777-9”. A matéria confirma a autorização da ANAC, o processo iniciado em 2024 e as companhias que operam no GIG e encomendaram o modelo. Acessar a reportagem
- Boeing. Atualização oficial sobre a certificação do 777-9: mais de 4.800 horas de ensaios, aproximadamente 1.700 voos e primeiras entregas previstas para 2027. Certification progress reported on 777-9
- Boeing. Informações sobre os ensaios de certificação em formação de gelo e confirmação de que o 777-9 será o maior avião comercial bimotor do mundo. 777-9 natural icing tests
- Boeing. Primeiro voo do sétimo 777-9, destinado aos ensaios ETOPS, de funcionamento e confiabilidade. Seventh 777-9 completes first flight
- Boeing. Primeiro voo do 777-9 destinado à Lufthansa, já equipado com interior de cliente para testes de cabine e sistemas. Lufthansa’s first 777-9 takes flight
- Airway. Detalhes sobre os procedimentos especiais no Galeão e as encomendas de Emirates, Lufthansa e British Airways. Galeão autorizado a receber o Boeing 777-9
Observação editorial: o Boeing 777-9 deve ser chamado de maior avião comercial bimotor do mundo, e não simplesmente de “maior avião do mundo”. A autorização da ANAC prepara o aeroporto para receber o modelo, mas não cria uma rota nem significa que ele começará imediatamente a operar no Galeão.

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