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sábado, 14 de fevereiro de 2026

Por que a gasolina de aviação é tão cara no Brasil?

 



Um olhar econômico sobre o custo da AVGAS e seus impactos na formação de pilotos

A gasolina de aviação, conhecida como AVGAS, é um combustível essencial para a base de toda a aviação civil: a aviação a pistão, responsável pela formação de pilotos, pela aviação agrícola, pelo táxi-aéreo leve e por boa parte das operações regionais. Apesar de sua importância estratégica, o Brasil convive há décadas com um paradoxo: produz gasolina de aviação e exporta excedentes a preços internacionais, enquanto o operador nacional paga um dos combustíveis mais caros do mundo.

Esse cenário não é apenas uma questão de mercado. Ele afeta diretamente a formação de pilotos, a sobrevivência dos aeroclubes e o custo-hora de voo, com reflexos em toda a cadeia da aviação.

Um combustível de nicho, mas estratégico

Diferentemente do querosene de aviação (QAV), usado por aeronaves a jato e responsável por quase todo o consumo aeronáutico do país, a AVGAS representa cerca de 1% do mercado de combustíveis de aviação.

Esse pequeno volume tem consequências diretas:

  • Produção em escala reduzida

  • Distribuição mais cara

  • Menor competição

  • Logística especializada

Mas, apesar de representar apenas uma fração do consumo, a AVGAS sustenta a base da pirâmide da aviação: a formação de pilotos.

Sem AVGAS acessível, o sistema começa a apresentar gargalos.

O custo de produção e o preço de exportação

A produção da gasolina de aviação no Brasil é concentrada principalmente na refinaria da Petrobras em Cubatão, em São Paulo. O processo envolve:

  • Refino de frações leves do petróleo

  • Ajuste de octanagem

  • Aditivação específica

  • Controle de qualidade aeronáutico rigoroso

O custo estimado de produção da AVGAS na refinaria gira em torno de:

  • US$ 0,60 a US$ 0,90 por litro

  • Aproximadamente R$ 3,00 a R$ 4,50 por litro na saída da refinaria

Quando há excedente, parte desse combustível é exportada para mercados da América Latina e Caribe por:

  • US$ 1,00 a US$ 1,40 por litro

  • Aproximadamente R$ 5,00 a R$ 7,00 por litro

Ou seja, o produto brasileiro é competitivo no mercado internacional.

O preço na bomba: o verdadeiro problema

O contraste aparece quando se observa o preço pago pelo operador brasileiro.

Na prática, a gasolina de aviação é vendida nos aeroportos do país por:

  • R$ 12,00 a R$ 15,00 por litro em grandes centros

  • R$ 16,00 a R$ 22,00 por litro em aeroportos regionais

Em alguns casos, o preço final chega a ser quatro vezes maior que o custo de produção.

Esse aumento ocorre por fatores como:

  • ICMS estadual

  • Margens de distribuição

  • Transporte rodoviário em pequenas quantidades

  • Estrutura concentrada de produção

O impacto direto na formação de pilotos

Para quem vive a aviação, o efeito é imediato e mensurável.

O combustível representa:

  • 30% a 50% do custo-hora de um avião de instrução

  • O principal fator de encarecimento do curso de piloto privado e comercial

Consequências práticas:

  • Redução de horas voadas

  • Alongamento do tempo de formação

  • Abandono de cursos por motivos financeiros

  • Enfraquecimento dos aeroclubes

O resultado é um efeito em cadeia:

Combustível caro → menos alunos → menos pilotos formados → escassez futura de mão de obra.

O paradoxo brasileiro

A situação pode ser resumida em uma frase:

O Brasil produz gasolina de aviação a custo competitivo, exporta excedentes a preço internacional e vende internamente a valores muito superiores.

Isso revela que o problema não está apenas no custo industrial, mas na estrutura de mercado, logística e tributação.

Uma questão estratégica, não apenas comercial

A gasolina de aviação não deve ser vista apenas como um produto de mercado. Ela é um insumo estratégico para a formação de mão de obra aeronáutica.

Países com forte tradição aeronáutica, como os Estados Unidos, mantêm:

  • Ampla rede de distribuição de AVGAS

  • Forte concorrência entre fornecedores

  • Preços relativamente acessíveis

O resultado é uma formação de pilotos mais barata e dinâmica.

No Brasil, o custo elevado cria uma barreira de entrada para novos profissionais, o que, a médio e longo prazo, pode afetar:

  • Companhias aéreas

  • Táxi-aéreo

  • Aviação regional

  • Segurança operacional

Caminhos possíveis

Algumas medidas poderiam reduzir o custo da AVGAS no país:

  1. Revisão tributária

    • ICMS diferenciado para combustível de instrução

  2. Ampliação da concorrência

    • Facilitação da importação de AVGAS

  3. Logística multimodal

    • Distribuição por dutos ou cabotagem em regiões estratégicas

  4. Incentivo a combustíveis alternativos

    • MOGAS certificada

    • AVGAS sem chumbo (100UL)

Conclusão

A gasolina de aviação é um combustível de pequeno volume, mas de enorme importância estratégica. É ela que move os aviões de instrução, forma os pilotos e sustenta a base da aviação civil.

O Brasil vive hoje um paradoxo econômico: produz e exporta AVGAS a preços competitivos, mas impõe ao operador nacional um dos combustíveis mais caros do mundo.

Resolver essa equação não é apenas uma questão de mercado. É uma política de formação de mão de obra, desenvolvimento regional e segurança da aviação.

Porque, no fim das contas, cada litro de AVGAS queimado em um aeroclube não é apenas combustível — é investimento em um futuro comandante.


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Marcuss Silva Reis