A região formada pela Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes e Jacarepaguá concentra um dos maiores volumes de operações de helicópteros da América Latina.
Impulsionado principalmente pela indústria offshore, o Aeroporto de Jacarepaguá – Roberto Marinho transformou-se, nas últimas décadas, em uma das principais bases logísticas para o transporte aéreo de passageiros e cargas destinados às plataformas de petróleo da Bacia de Santos e da Bacia de Campos.
Paralelamente a esse crescimento, houve uma expansão significativa do número de helipontos corporativos, hospitalares e privados distribuídos pela Barra da Tijuca e pelo Recreio dos Bandeirantes, aumentando a complexidade operacional de uma região já marcada pela intensa urbanização, obstáculos naturais e elevada densidade populacional.
O recente choque entre dois helicópteros no Recreio dos Bandeirantes reacendeu uma discussão que há muito tempo preocupa profissionais da aviação: a infraestrutura aeronáutica da região evoluiu na mesma velocidade do crescimento das operações?
As causas do acidente ainda serão apuradas pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA), e qualquer conclusão antecipada seria inadequada e desrespeitosa com o processo investigativo.
No entanto, é possível — e necessário — refletir sobre os fatores sistêmicos que aumentam a exposição ao risco operacional.
Acidentes não surgem do nada. Eles são precedidos por condições latentes que se desenvolvem ao longo do tempo. O aumento contínuo das operações de helicópteros na Barra da Tijuca, Recreio dos Bandeirantes e Jacarepaguá, sem a correspondente evolução da infraestrutura aeronáutica, do gerenciamento do espaço aéreo e dos sistemas de apoio operacional, aumenta progressivamente a exposição ao risco.
O crescimento do tráfego aéreo de asas rotativas precisa ser acompanhado por investimentos proporcionais em infraestrutura, tecnologia e gestão.
Isso inclui a modernização dos sistemas de vigilância e monitoramento, a revisão dos corredores visuais para helicópteros, o aprimoramento dos procedimentos de autocoordenação, a ampliação da cobertura de comunicações e o fortalecimento da integração entre operadores, órgãos de controle e autoridades regulatórias.
A convivência simultânea de operações offshore, voos executivos, serviços aeromédicos, aviação particular e voos de instrução exige um modelo de gerenciamento do espaço aéreo capaz de antecipar riscos e mitigar vulnerabilidades antes que elas se transformem em acidentes.
Quando o crescimento da demanda supera a capacidade da infraestrutura disponível, o sistema passa a operar com margens de segurança progressivamente menores.
A aviação offshore brasileira construiu, ao longo das últimas décadas, uma sólida cultura de segurança e elevados padrões operacionais. Entretanto, segurança operacional é um processo dinâmico e exige atualização permanente.
O desafio não é apenas administrar o tráfego aéreo atual, mas planejar o futuro.
A região da Barra da Tijuca, do Recreio dos Bandeirantes e de Jacarepaguá demanda uma visão estratégica que considere o aumento contínuo das operações e a necessidade de investimentos em infraestrutura aeroportuária, gerenciamento do espaço aéreo e serviços de apoio à navegação aérea.
Na aviação, agir somente após a ocorrência de acidentes é sempre a alternativa mais custosa.
A prevenção exige antecipação.
Porque, quando o tráfego cresce mais rápido do que a infraestrutura, o risco operacional deixa de ser uma possibilidade remota e passa a ser uma consequência previsível.
Marcuss Silva Reis
Piloto Comercial, economista, perito judicial em aviação, técnico em óptica e especialista em Segurança da Aviação Civil.

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Marcuss Silva Reis