Em outubro, o Brasil terá uma escolha importante a fazer. Não se trata apenas de uma disputa eleitoral, mas da definição do ambiente institucional, econômico e regulatório que poderá influenciar diretamente o futuro da aviação brasileira.
A aviação é um setor sensível. Ela depende de previsibilidade, segurança jurídica, responsabilidade fiscal, estabilidade econômica e gestão técnica. Quando esses elementos falham, o resultado costuma aparecer na redução de investimentos, no encarecimento das operações, na retração da aviação regional e na perda de competitividade.
A aviação precisa de estabilidade
Nenhuma empresa aérea, operador regional, escola de aviação, oficina de manutenção ou investidor internacional consegue planejar o futuro em ambiente instável.
Aeronaves são ativos caros. Contratos de leasing são longos. Peças, motores, seguros e treinamentos têm forte exposição ao dólar. Aeroportos exigem investimentos de décadas.
Por isso, a aviação não combina com improviso.
O ambiente atual exige reflexão
O setor aeronáutico brasileiro enfrenta desafios conhecidos:
- custos operacionais elevados;
- carga tributária complexa;
- insegurança regulatória;
- judicialização excessiva;
- infraestrutura regional subutilizada;
- aviação regional enfraquecida;
- dificuldade de atrair investimentos;
- ausência de uma política nacional contínua para o setor.
Esses fatores não devem ser tratados como problemas isolados. Eles formam um ambiente que dificulta o crescimento da aviação.
A aviação regional como exemplo
A quase inexistência da aviação regional em boa parte do território nacional revela a dimensão do problema.
Um país continental deveria ter uma malha aérea capaz de integrar cidades médias, regiões remotas, polos produtivos e áreas turísticas. No entanto, o Brasil concentrou boa parte de sua operação em poucos grandes centros, deixando muitos municípios dependentes exclusivamente do transporte rodoviário.
Isso reduz competitividade, encarece deslocamentos e limita oportunidades econômicas.
O que deveria estar no centro do debate
O debate eleitoral precisa ir além de promessas genéricas. A aviação brasileira precisa de compromissos objetivos com:
- responsabilidade fiscal;
- controle da inflação;
- estabilidade regulatória;
- redução do custo Brasil;
- segurança jurídica;
- planejamento aeroportuário regional;
- estímulo à aviação geral e regional;
- fortalecimento da formação aeronáutica;
- incentivo à manutenção aeronáutica nacional;
- decisões técnicas, e não apenas políticas.
Não é questão partidária. É questão de Estado
A aviação não deve ser tratada como pauta de governo, mas como política de Estado.
Governos passam. Infraestrutura permanece. Aeronaves operam por décadas. Aeroportos exigem continuidade. Formação profissional leva tempo. Segurança operacional depende de cultura institucional sólida.
Quando cada ciclo político altera prioridades sem planejamento técnico, o setor perde eficiência e confiança.
Conclusão
Em outubro, o eleitor brasileiro terá a oportunidade de avaliar qual projeto oferece melhores condições para o desenvolvimento da aviação nacional.
A pergunta central é simples:
queremos continuar em um ambiente que dificulta investimentos e limita o crescimento do setor, ou construir bases sólidas para uma aviação mais competitiva, regionalizada, segura e integrada ao desenvolvimento nacional?
A aviação brasileira não precisa de retórica. Precisa de estabilidade, planejamento, responsabilidade econômica e gestão técnica.
Sem isso, o país continuará desperdiçando seu enorme potencial aeronáutico.
Marcuss Silva Reis
Economista | Piloto Comercial de Asas Fixas | Perito Judicial em Aviação | Técnico em Óptica Oftálmica
Pós-graduado em Ciências Aeronáuticas, Segurança da Aviação Civil (Safety & Security) e Docência do Ensino Superior.Instrutor de escolas de aviação, professor universitário e fundador do Instituto do Ar aviação, dedica-se ao estudo da economia dos transportes, da segurança operacional, da infraestrutura aeronáutica e das políticas públicas para o desenvolvimento da aviação brasileira.

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Marcuss Silva Reis