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domingo, 4 de janeiro de 2026

Entre o Palco e o Cockpit: Uma Aventura do Táxi Aéreo Brasileiro

 




Cabine do PT-EEZ ultima versão,tirada pelo Cmte Euzebio Ex piloto da maquina que ficamos  sabendo foi vendida para outro país,e foi derrubada transportando ilícitos......pena!

Naquela fase da vida, eu estava vivendo uma transição importante. Depois de deixar a função de comandante na instrução, havia entrado como copiloto de táxi-aéreo na Costair taxi aéreo. Avião maior, outro ritmo, outro nível de responsabilidade. Para quem ama a aviação geral, era o tipo de escola que não se aprende em livro,a empresa tinha três aviões,o Navajão PT-EEZ,oSeneca PT-EEK e o Beatch PT-LUW.

Naquele dia, eu voava com o Cmte. Maurício no PT -EEZ. A missão parecia simples: um fretamento do Rio de Janeiro para Alfenas, Minas Gerais. Estávamos no pátio na cabine do avião  aguardando os passageiros,mauricio aproveitou para me brifar sobre a operação daquela maquina quando, ao longe, vi a clássica Kombi se aproximando — sinal claro de que o voo estava prestes a sair.

Chamei o solo para pegar a autorização. Enquanto copiava os dados, concentrado no rádio e no papel, não percebi os passageiros embarcando. Portas fechadas, checklist andando, acionamento autorizado… quando, de repente, ecoa na cabine um grito absolutamente familiar:

 — “Qualé, vooceeê que sabe!

 Olhei para trás e, naquele instante, o tempo deu uma volta completa.

 Ali estava Cláudio Moreno — naquele voo, atuando como produtor do artista,Galan de novelas que viajava acompanhado de sua companheira. Para mim, porém, ele era muito mais do que isso: era o mestre de capoeira, amigo de longa data, um dos meus mestres do Grupo Senzala, onde treinei por anos a fio .

Abri um sorriso imediato. A aviação, mais uma vez, cruzava caminhos improváveis. Trocamos poucas palavras — o voo não espera — e partimos para Alfenas. O artista iria fazer uma presença VIP na inauguração de um centro comercial.

 ️ O primeiro aviso

 Já próximos do início da descida, o motor esquerdo deu uma leve oscilada. Nada dramático, mas suficiente para acender o alerta interno. O Maurício comentou, com a calma de quem já tinha estrada:

 — Fica de olho nesse motor.

 Assim fizemos. Pouso normal, tudo dentro do previsto. No solo, Cláudio e o artista fizeram questoã de que fôssemos almoçar juntos. O Moreno queria conversar comigo, relembrar histórias, colocar o papo em dia. Aviador também vive esses momentos fora da cabine.

 Diepois do almoço, voltamos ao aeroporto para preparar o  voo de retorno ao Ro. Antes de qualquer coisa, fizemos o que manda o manual e a consciência: checagem completa do motor. Acionamento, magnetos, alimentação de combustível, parâmetros… tudo perfeito. Nenhuma oscilação. Nada fora do lugar. O motor havia sido verificado,pontualmente as 15:30h. Plano feito, aguardamos. Mais uma rotina aparentemente cumprida e e4u absorvendo tudo que Mauricio falava.

 🔥 A pane de verdade

 Passageiros a bordo novamente. Decolamos. Subida normal. Até que, já passando aproximadamente6.000 pés, veio a realidade nua e crua da aviação:

 Uma nova rateada.

Depois, um barulho seco,o avião deu uma derrapada puxando a asa esquerda para trás

E, em seguida, os instrumentos não deixaram dúvida:

estávamos monomotor.

 A aeronave era o Navajão PT-EEZ — avião que voa até hoje. Inclusive, poucos dias atrás, vi um ex-aluno meu da universidade voando essa mesma aeronave em fotos publicadas no Facebook. Fiz questão de comentar: “Já voei essa máquina…”mal sabia ele que eu voei umas 500 e poucas horas nele.

 Mas naquele dia, lá atrás, a situação era séria.

 RPM caindo acentuadamente, assimetria clara. Naquele instante surge a decisão que precisa ser tomada rápido: embandeirar ou não embandeirar a helice e cortar o motor. O detalhe crítico é que o sistema de emadeiramento é hidráulico. Se o motor fosse cortado no momento errado,  não seria  possível embandeirar  porque  isso  fecha todas as alimentações do motor, ,elétrica,hidráulica e combustível— e o que antes gerava tração passaria a ser apenas peso morto e arrasto.

 Estávamos na vertical de Varginha.

 O Maurício me perguntou o que eu achava e decidiu,e  veio como tem que ser em aviação:

 — Vamos pousar em Varginha.

 Emergência declarada. Procedimentos na ponta da língua. Aeronave sob controle. Pouso perfeito. Todos em segurança.

 Quando paramos e o silêncio tomou conta da cabine, o Moreno soltou, com aquele sorriso maroto,malandro de quem entende a vida:

 Capoeira não cai… escorrega!

 Rimos. Alívio puro.

 🎭 Do cockpit para o palco

 Mas ainda havia um problema: o artista tinha compromisso no teatro no Rio, como um dos protagonistas da peça Blue Jeans. Não havia como seguir voando naquela aeronave e muito menos chegar a tempo no teatro.

 A empresa enviou outro avião, o PT-LUW, para nos resgatar. Iríamos pernoitar em Varginha enquanto o Navajo era reparado pelo mecânico Tavares.

 Foi então que o artista fez algo inesquecível.

 Ligou para a Costair e para o teatro teatro e insistiu que fôssemos com ele, para dar satisfação ao público, ao elenco e à direção. E fomos.

 No palco, diante da plateia, ele explicou o ocorrido e nos apresentou como o verdadeiro motivo do atraso:

 — Esses aqui são os pilotos… meu álibi.

 Aplausos. Risadas. Um daqueles momentos que ficam guardados para sempre.

 Depois disso, o artista voou muitas outras vezes comigo, em diferentes aeronaves. A confiança estava ali, construída não por palavras, mas por uma experiência real.

 ️ Boas lembranças da aviação geral

 Isso é o táxi-aéreo.

É rotina, mas também é aventura.

É técnica, mas também é humanidade.

É decisão rápida, responsabilidade enorme — e histórias que só quem viveu pode contar.

 Boas lembranças.            

OBS:Não citei o nome do artista por questões éticas por não ter sua autorização para citar seu nome.


Marcus Silva Reis, o Você que sabe

6 comentários:

  1. Era a profissão se manifestando, as adversidades acontecem e com elas aprendemos!

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  2. Verdadeiros heróis!!!

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  3. Bons tempos! Grande máquina!
    Grande abraço Marcus Reis.
    Nelson Oro.

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  4. Experiência incrível, responsabilidade e uma boa tomada de decisão andam lado a lado.

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  5. Uma aviação diferente, muitas vezes a porta de entrada para uma empresa de transporte de passageiros e a busca por uma melhor colocação no mercado de trabalho. Um grande abraço Mestre Marcão.

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  6. eis que marcus, entre tantas aptidões, demonstra ser também um excelente contador de “causos”. parabéns pelo texto saboroso.

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Obrigado pelo seu comentário!!!!
Marcuss Silva Reis