Existe algo silencioso acontecendo na aviação brasileira que talvez muita gente ainda não tenha percebido.
Estamos abandonando, pouco a pouco, os próprios símbolos que construíram a formação aeronáutica nacional.
Aeroclubes fechando. Escolas tradicionais desaparecendo. Pátios antes ocupados por aeronaves de instrução sendo substituídos por hangares executivos. A cultura aeronáutica regional sendo tratada como algo ultrapassado, quase folclórico.
E isso é extremamente perigoso.
A recente polêmica envolvendo o Aeroclube de Canela escancarou esse debate de forma dolorosa.
Após décadas de atuação no Aeroporto de Canela, uma das cidades mais importantes da Serra Gaúcha, o aeroclube passou a enfrentar uma disputa judicial envolvendo sua permanência na área aeroportuária. O caso ganhou repercussão após a perda de uma liminar que tentava impedir um processo de despejo ligado à ocupação da estrutura dentro do aeroporto.
Mas o problema vai muito além de uma disputa contratual.
O que se discute ali é o próprio espaço da formação aeronáutica dentro do modelo atual de gestão aeroportuária brasileira.
E essa talvez seja a parte mais preocupante.
A aviação brasileira não nasceu em grandes terminais de vidro nem em aeroportos concebidos apenas como ativos comerciais. Ela nasceu em pistas simples, hangares modestos e aeroclubes que formaram gerações inteiras de pilotos, mecânicos, instrutores e profissionais da aviação.
Foi dentro desses ambientes que milhares de aviadores aprenderam não apenas a pilotar, mas a compreender doutrina operacional, cultura de segurança, disciplina aeronáutica e respeito pela atividade aérea.
Os aeroclubes sempre foram escolas de mentalidade operacional.
E o Aeroclube de Canela representa exatamente esse símbolo histórico.
A discussão envolvendo sua permanência evidencia uma mudança silenciosa na lógica de muitos aeroportos brasileiros: a substituição gradual da formação aeronáutica pela exploração puramente comercial das áreas aeroportuárias.
Hoje, em muitos locais, parece existir mais interesse no valor imobiliário do espaço do que no valor estratégico da formação de aviadores.
Quanto rende um hangar.
Quanto custa o metro quadrado.
Quanto vale a ocupação comercial da área.
Mas quase ninguém pergunta:
Quanto vale preservar um centro de formação aeronáutica?
Quanto custa destruir décadas de tradição operacional?
Quanto custa perder ambientes que ajudaram a construir a aviação civil brasileira?
O fechamento gradual dos aeroclubes representa muito mais do que a perda física de uma instituição. Representa a erosão lenta da memória técnica da aviação nacional.
E talvez o pior esteja justamente nisso:
o abandono acontece sem grande reação nacional.
A sociedade muitas vezes não compreende a importância de um aeroclube.
Muitos enxergam apenas “aviões pequenos”. Não percebem que ali está um dos pilares mais importantes da segurança operacional: a formação humana do aviador.
Não existe aviação forte sem base forte.
E a base da aviação brasileira sempre esteve nos aeroclubes.
Países com tradição aeronáutica sólida preservam seus flying clubs, suas escolas regionais e seus aeroportos de formação como patrimônio estratégico da aviação.
No Brasil, infelizmente, parece que estamos caminhando na direção oposta.
Substituímos cultura aeronáutica por especulação aeroportuária.
Substituímos formação por ocupação comercial.
Substituímos tradição por rentabilidade imediata.
Enquanto isso, desaparecem hangares históricos, oficinas-escola, instrutores experientes e ambientes onde jovens aprendiam não apenas a voar, mas a pensar como aviadores.
A consequência disso não aparece imediatamente.
Ela surge anos depois.
Na escassez de profissionais bem formados.
Na perda da cultura de segurança.
Na fragilidade operacional.
Na desconexão entre teoria e prática.
A aviação é construída sobre tradição, experiência acumulada e transmissão de conhecimento.
Quando um aeroclube fecha, não desaparece apenas uma instituição.
Desaparece um pedaço da história da aviação brasileira.
E o caso do Aeroclube de Canela talvez seja um dos sinais mais claros de que estamos deixando nossos símbolos aeronáuticos desaparecerem diante dos nossos olhos.
Marcuss Silva Reis
Piloto Comercial • Perito em Aviação • Professor de Ciências Aeronáuticas • Economista • Especialista em Segurança Operacional e Gestão da Aviação Civil

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Marcuss Silva Reis