A aeronave cruza a cabeceira, o piloto inicia o arredondamento, reduz a razão de descida e espera o toque. Mas o avião continua voando rente à pista, consumindo metros preciosos sem pousar. Esse fenômeno é conhecido como flutuação no arredondamento.
Embora seja relativamente comum no treinamento de pilotos, a flutuação não deve ser tratada apenas como um pouso “um pouco longo”. Dependendo da pista, da velocidade e das condições meteorológicas, ela pode reduzir perigosamente a distância disponível para desaceleração e contribuir para uma saída pelo final da pista.
O que é o arredondamento?
O arredondamento, também chamado de roundout ou, de maneira mais ampla, flare, é a transição entre a descida da aproximação final e a atitude de pouso.
Ao se aproximar da pista, o piloto aumenta gradualmente a atitude de nariz, reduzindo a razão de descida. A aeronave perde velocidade e deve tocar suavemente, normalmente primeiro com o trem principal.
O arredondamento não deve ser uma manobra brusca. Trata-se de uma transição progressiva, realizada com referências visuais externas, controle de velocidade e percepção correta da altura.
O que significa “flutuar” no pouso?
A flutuação ocorre quando, após o arredondamento, a aeronave permanece voando próxima à superfície por uma distância maior do que a prevista.
O avião não toca porque ainda possui energia suficiente para continuar voando. Na maioria dos casos, essa energia excedente foi trazida desde a aproximação final, principalmente sob a forma de velocidade excessiva.
Quanto maior a velocidade acima daquela recomendada para a aproximação, mais tempo será necessário para a aeronave desacelerar até uma condição adequada para o toque.
O papel da velocidade excessiva
A sustentação pode ser expressa, de forma simplificada, pela equação:
Onde:
- é a sustentação;
- é a densidade do ar;
- é a velocidade;
- é a área da asa;
- é o coeficiente de sustentação.
A velocidade aparece elevada ao quadrado. Isso ajuda a compreender por que poucos nós acima da velocidade prevista podem produzir uma diferença operacional significativa.
A energia cinética também varia com o quadrado da velocidade:
Assim, uma aproximação realizada apenas 10% mais rápida representa aproximadamente 21% mais energia cinética a ser dissipada. Essa energia não desaparece quando o avião cruza a cabeceira: ela será consumida durante a flutuação, o toque e a corrida de pouso.
Como o efeito solo prolonga a flutuação?
Ao voar muito próximo da pista, normalmente a uma altura inferior à envergadura da aeronave, ocorre o chamado efeito solo.
A proximidade do solo modifica o escoamento ao redor da asa, reduz a intensidade dos vórtices de ponta e diminui o arrasto induzido. Em termos práticos, a asa passa a operar de maneira mais eficiente naquela pequena altura.
Se a aeronave entra no efeito solo com velocidade excessiva, a redução do arrasto induzido dificulta a dissipação rápida da energia. O avião parece “não querer pousar”, mas está apenas respondendo às condições aerodinâmicas presentes.
O efeito solo não é a causa inicial de toda flutuação. Frequentemente, ele apenas evidencia e prolonga o excesso de energia trazido pela aproximação.
Principais causas da flutuação
A velocidade excessiva é a causa mais frequente, mas não é a única condição que pode contribuir. Entre os fatores mais comuns estão:
- velocidade de aproximação acima da recomendada;
- acréscimo excessivo de velocidade por rajada;
- potência reduzida tardiamente;
- aproximação não estabilizada;
- cruzamento da cabeceira acima da altura prevista;
- configuração incorreta de flapes;
- vento de cauda;
- arredondamento iniciado de maneira inadequada;
- tentativa de corrigir uma aproximação alta e rápida próximo da pista;
- referência de velocidade incompatível com o peso real da aeronave.
Os valores de velocidade, configuração e técnica devem seguir o Manual de Voo da Aeronave ou o Pilot’s Operating Handbook — AFM/POH. Recomendações genéricas não substituem os procedimentos estabelecidos pelo fabricante.
Flutuação, balonamento e quique não são a mesma coisa
Esses três fenômenos podem aparecer na mesma sequência, mas possuem características diferentes.
Flutuação
A aeronave permanece próxima à pista, aproximadamente na mesma altura, enquanto perde velocidade lentamente.
Balonamento
Durante o arredondamento, o piloto aumenta excessivamente a atitude ou aplica comando de cabrar com muita rapidez. A aeronave volta a ganhar altura, formando uma trajetória semelhante a um pequeno arco.
Quique
A aeronave toca a pista e volta ao ar. Pode decorrer de velocidade excessiva, toque duro, atitude inadequada ou contato inicial com o trem de nariz.
Uma flutuação prolongada pode induzir o piloto a tentar forçar o pouso. Essa tentativa pode provocar balonamento, toque com o trem de nariz, quique ou até uma sequência de oscilações conhecida como porpoising.
Por que não se deve empurrar o avião contra a pista?
Quando percebe que o ponto de toque está ficando para trás, o piloto pode sentir a tentação de baixar o nariz para colocar as rodas no chão.
Essa reação é perigosa.
Em uma aeronave com trem triciclo, baixar bruscamente o nariz pode levar ao contato prematuro do trem dianteiro. Além de aumentar o risco de danos estruturais, isso pode iniciar uma sequência de quiques progressivos, comprometer o controle direcional ou provocar contato da hélice com a pista.
O pouso não deve ser “salvo” a qualquer custo. Se a aeronave não está mais em condições de tocar dentro da área planejada, a resposta operacionalmente correta é a arremetida.
A pista consumida não volta
Durante a flutuação, a aeronave continua avançando em velocidade relativamente elevada. Cada segundo sem tocar representa pista consumida sem que a frenagem efetiva tenha começado.
A situação torna-se ainda mais crítica quando existem:
- pista curta;
- pista molhada ou contaminada;
- vento de cauda;
- temperatura elevada;
- aeródromo em grande altitude;
- declive desfavorável;
- obstáculos depois da cabeceira oposta;
- desempenho de frenagem reduzido;
- ausência de áreas de segurança adequadas.
Mesmo depois do toque, ainda existe um intervalo até que todos os meios de desaceleração estejam atuando plenamente. Um pouso aparentemente suave, mas muito longo, não representa necessariamente um bom pouso.
Quando arremeter?
A decisão deve ser tomada antes que a situação se transforme em urgência. O piloto precisa estabelecer critérios compatíveis com o tipo de operação, o comprimento da pista, o desempenho da aeronave e os procedimentos do operador.
A arremetida deve ser considerada quando:
- a aproximação não estiver estabilizada;
- a velocidade na cabeceira permanecer excessiva;
- o ponto previsto de toque não puder mais ser atingido;
- a aeronave estiver flutuando além do limite planejado;
- ocorrer balonamento significativo;
- a distância restante não assegurar a parada;
- o piloto perder referências ou controle adequado da trajetória.
A FAA destaca a importância da aproximação estabilizada e orienta que o piloto consiga prever o ponto de toque, incluindo a distância percorrida durante o arredondamento. Seu manual também reforça que os procedimentos e velocidades do fabricante têm precedência sobre orientações gerais. Essas explicações constam do Airplane Flying Handbook — Capítulo 9: aproximações e pousos.
Arremeter não significa fracassar no pouso. Significa reconhecer, enquanto ainda existe margem, que as condições necessárias para concluir a manobra deixaram de existir.
Como evitar a flutuação?
A prevenção começa muito antes do arredondamento:
- Calcule a velocidade correta para o peso e as condições do voo.
- Utilize a configuração prevista pelo fabricante.
- Estabeleça a aeronave na trajetória e na velocidade adequadas.
- Evite acréscimos arbitrários de velocidade.
- Observe a altura de cruzamento da cabeceira.
- Defina antecipadamente o ponto máximo aceitável para o toque.
- Inicie a arremetida quando esse limite não puder mais ser respeitado.
A disciplina de velocidade é uma das principais defesas. Aproximar “um pouco mais rápido por segurança” pode produzir justamente o efeito contrário, especialmente em pistas curtas ou molhadas.
Conclusão
A flutuação no arredondamento é uma manifestação visível de um problema de gerenciamento de energia. Em geral, o pouso começou a ficar longo antes mesmo de a aeronave cruzar a cabeceira.
O piloto que chega alto, rápido ou desestabilizado não deve esperar que o arredondamento corrija aquilo que a aproximação não resolveu. Quando o avião consome a pista sem tocar, a margem operacional também está sendo consumida.
Um bom pouso não é simplesmente aquele em que o toque parece suave. É aquele realizado na velocidade correta, dentro da área planejada e com distância suficiente para uma desaceleração segura. Se essas condições deixarem de existir, a melhor técnica continua sendo a mais simples: aplicar potência, arremeter e preparar uma nova aproximação.
Marcuss Silva Reis
Piloto Comercial de asas fixas | Ex-instrutor de escolas de aviação civil | Professor universitário de Ciências Aeronáuticas | Perito judicial em aviação | Economista | Pós-graduado em Ciências Aeronáuticas, Segurança da Aviação Civil e Docência do Ensino Superior | Técnico em Óptica
Fundador do Instituto do Ar

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Marcuss Silva Reis