Após uma tentativa de ataque em pleno voo, a investigação se amplia e expõe uma questão fundamental para a aviação comercial: a segurança começa muito antes da decolagem.
Uma investigação que ultrapassa os limites do cockpit
O caso envolvendo o voo FZ1073 da Flydubai, ocorrido em 30 de setembro de 2026, ganha novos desdobramentos e coloca novamente em discussão os processos de seleção, contratação e acompanhamento de tripulantes.
Durante o voo entre Dubai e Tel Aviv, o copiloto omanense Hamam al-Hammami teria atacado o comandante com um machado de emergência e tentado assumir o controle da aeronave.
O avião foi desviado para Tabuk, na Arábia Saudita, onde pousou em segurança. As autoridades dos Emirados Árabes Unidos abriram uma investigação criminal para apurar as circunstâncias e motivações do episódio.
Agora, informações divulgadas pela imprensa internacional apontam que outros dois copilotos da Flydubai, cidadãos das Maldivas, teriam sido detidos para investigação.
Segundo esses relatos, os profissionais residiam no mesmo edifício que o copiloto investigado e também realizavam voos para Israel.
É indispensável esclarecer que, até o momento, não foram divulgadas evidências públicas suficientes para estabelecer a participação dos dois profissionais no ataque. As detenções relatadas ainda dependem de confirmação oficial independente.
Entretanto, o caso já oferece elementos relevantes para uma discussão que considero indispensável.
A seleção de pilotos precisa ir além da documentação
Tenho insistido em uma questão que considero fundamental: mão de obra aeronáutica não pode ser tratada como simples insumo variável de uma empresa aérea.
Estamos falando de profissionais que recebem a responsabilidade de transportar centenas de pessoas e operar equipamentos de elevada complexidade.
Licenças, habilitações, certificados médicos, horas de voo e verificações em simulador são requisitos indispensáveis.
Mas serão suficientes?
Reportagens da Associated Press e do Wall Street Journal indicaram que o copiloto investigado já teria enfrentado restrições profissionais anteriores relacionadas a preocupações com comportamento extremista.
Se essas informações forem confirmadas, será necessário compreender por que não impediram sua contratação ou designação para determinadas operações.
Não se trata de presumir que uma empresa tenha sido negligente antes de conhecer os resultados da investigação.
Trata-se de reconhecer que os processos de seleção precisam permitir a identificação e a avaliação responsável de informações relevantes sobre antecedentes profissionais.
Uma habilitação técnica não substitui uma avaliação criteriosa de riscos.
O RH não pode trabalhar isoladamente
Nas companhias aéreas, Recursos Humanos, Operações de Voo, Treinamento e Aviation Security precisam compartilhar responsabilidades dentro dos limites legais.
Uma contratação não deveria se resumir à análise de um currículo, documentos de habilitação e entrevistas.
Histórico profissional, referências anteriores e eventuais restrições pertinentes à função exigem procedimentos de verificação.
O acompanhamento também não termina quando o piloto recebe seu crachá e começa a cumprir a escala.
A aviação já compreendeu a necessidade de avaliações recorrentes de proficiência, treinamento e desempenho.
O mesmo princípio de continuidade deve orientar o acompanhamento da conduta profissional, sempre com critérios objetivos, proteção da privacidade e respeito aos direitos individuais.
O Anexo 17 e a ameaça que pode estar dentro da organização
O Anexo 17 da ICAO estabelece normas e práticas recomendadas para proteger a aviação civil contra atos de interferência ilícita.
Dentro dessa estrutura de proteção, existe uma preocupação conhecida como insider threat, ou ameaça interna.
Uma pessoa que possui acesso legítimo a uma aeronave, instalação ou sistema pode, em determinadas circunstâncias, utilizar esse acesso indevidamente.
É por isso que uma política de Security não pode se limitar à inspeção de passageiros e bagagens.
Entretanto, nacionalidade, religião ou convicções pessoais não constituem, isoladamente, evidências de ameaça.
A prevenção precisa trabalhar com indicadores verificáveis, informações pertinentes e avaliação profissional de riscos.
No caso Flydubai, será especialmente importante compreender se havia informações anteriores que deveriam ter sido consideradas e como ocorreu a comunicação entre empregadores e autoridades.
Quem responde quando os filtros falham?
Uma investigação dessa natureza precisa ir além da conduta individual.
Caso sejam comprovadas falhas nos processos de verificação, será necessário identificar em que etapa ocorreram e quais mecanismos poderiam tê-las evitado.
A responsabilidade pode envolver diferentes organizações e procedimentos.
O Anexo 19 da ICAO, dedicado ao gerenciamento da segurança operacional, e o Anexo 17, voltado à proteção contra atos de interferência ilícita, tratam de áreas distintas. Contudo, ambos reforçam, em seus respectivos campos, a necessidade de sistemas organizacionais estruturados.
Na minha avaliação, não podemos esperar que uma ocorrência grave revele fragilidades que poderiam ter sido examinadas preventivamente.
Conclusão: segurança não começa no checklist
Como piloto comercial, ex-instrutor e professor de aviação civil, sempre considerei que a formação de um aviador não termina com a obtenção de uma licença.
Competência técnica, disciplina, capacidade de julgamento e conduta profissional precisam caminhar juntas.
O episódio da Flydubai deverá ser esclarecido pelas autoridades competentes, sem conclusões precipitadas sobre pessoas ainda investigadas.
Mas uma reflexão já é necessária.
Se verificamos periodicamente a competência de um piloto para operar uma aeronave, também precisamos garantir que os processos institucionais sejam capazes de identificar riscos relevantes para o exercício dessa responsabilidade.
A segurança de voo não começa no checklist de preparação da aeronave.
Ela começa na cultura organizacional, na qualidade das contratações, na circulação responsável das informações e no acompanhamento dos profissionais.
E termina, diariamente, na confiança que passageiros e tripulantes depositam na aviação civil.
Sobre o autor
Marcuss Silva Reis
Piloto Comercial de asas fixas, piloto da aviação geral, perito judicial em aviação, economista e técnico em óptica. Pós-graduado em Ciências Aeronáuticas, Segurança da Aviação Civil e Docência do Ensino Superior. Ex-instrutor de escolas de aviação civil e professor universitário.
Instituto do Ar
www.institutodoaraviacao.com.br
Referências e fontes de consulta
Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos. UAE Following Incident Involving Flydubai Flight to Tel Aviv. 1º de outubro de 2026. https://www.mofa.gov.ae/en/MediaHub/News/2026/10/1/UAE-fly-dubai
Reuters. Saudi Arabia launches air safety probe into flydubai incident, sources say. 7 de outubro de 2026.
Associated Press. FACT FOCUS: What's known about the FlyDubai attack probe and the red flags about the suspect. Outubro de 2026.
The Wall Street Journal. Reportagens sobre os antecedentes profissionais do copiloto e possíveis falhas na verificação de segurança. Outubro de 2026.
ICAO. Annex 17 — Aviation Security. Montreal.
ICAO. Annex 19 — Safety Management. Montreal.


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Marcuss Silva Reis