Uma apresentação às quatro da manhã pode exigir que o tripulante acorde às duas. Um pouso ao amanhecer pode ocorrer depois de uma noite inteira de trabalho. Entre esses compromissos, o organismo continua seguindo seus próprios horários.
Esse desencontro ajuda a compreender a fadiga na aviação. A escala determina quando o aeronauta deve trabalhar; o relógio biológico influencia quando ele consegue dormir, manter a atenção e responder às exigências da operação.
Planejar o trabalho de uma tripulação exige considerar tanto o tempo disponível para repouso quanto o momento em que esse repouso acontece.
O que é o relógio biológico?
Os ritmos circadianos são oscilações físicas, mentais e comportamentais que se repetem em ciclos de aproximadamente 24 horas. Participam da organização do sono, da temperatura corporal, da liberação de hormônios, do apetite e da digestão.
No cérebro, uma estrutura chamada núcleo supraquiasmático coordena esse sistema. Ela recebe informações sobre a luminosidade captada pelos olhos e ajuda a sincronizar o organismo com a alternância entre dia e noite.
A melatonina participa dessa sinalização: sua produção normalmente aumenta durante a noite biológica. Entretanto, o funcionamento do sistema envolve vários mecanismos, além desse hormônio.
A luz é o principal sincronizador externo. Alimentação, atividade física e rotina social também influenciam os ritmos. Por isso, mudar o horário de dormir exige mais do que simplesmente adiantar o despertador.
Dois processos influenciam a disposição para voar
A regulação do sono pode ser compreendida pela interação entre dois processos.
O primeiro é a pressão homeostática do sono: a necessidade de dormir aumenta com o tempo acordado e diminui durante o sono.
O segundo é o processo circadiano, que favorece a vigília ou o sono conforme a fase do relógio biológico. Esses mecanismos explicam por que alguém pode estar cansado e, ainda assim, encontrar dificuldade para adormecer em determinado horário.
Na prática, orientar um tripulante a “dormir mais cedo” pode ser insuficiente. Se o organismo ainda estiver promovendo a vigília, parte do período reservado ao descanso será passada tentando pegar no sono.
A madrugada e a janela de baixa do alerta
A orientação da ANAC identifica, para a maioria das pessoas com sono noturno habitual, uma janela de maior sonolência entre 2h e 6h, conhecida como Window of Circadian Low — WOCL.
Os horários variam entre indivíduos. Depois de mudanças de fuso, é necessário considerar o horário biológico ao qual o tripulante está adaptado.
Imagine, como exemplo didático, uma aproximação às cinco da manhã realizada por uma tripulação adaptada ao horário local. A operação pode coincidir com essa janela de maior vulnerabilidade.
O planejamento deve considerar essa coincidência junto com o sono anterior, o tempo acordado e a carga de trabalho. O horário do pouso, isoladamente, não determina a condição de cada tripulante.
Voos domésticos também podem desorganizar o sono
A exposição à fadiga existe mesmo sem grandes mudanças de fuso. Apresentações muito cedo, encerramentos tardios e várias etapas na mesma jornada são desafios reconhecidos nas operações de curta duração.
Uma pesquisa publicada no Journal of Sleep Research encontrou redução de alerta e desempenho associada tanto a inícios precoces quanto a términos tardios nas jornadas de pilotos de voos curtos.
Considere um exemplo: para se apresentar às 4h30, o piloto precisa acordar às 2h30. Se adormecer às 22h30, terá apenas quatro horas de sono antes de começar o dia. A duração do voo não revela esse histórico.
Na aviação executiva, solicitações variáveis, chegadas tardias e despertares antecipados também podem comprometer a recuperação. A FAA reconhece esses fatores como relevantes nesse segmento.
Mudanças de fuso: o relógio do destino e o relógio do corpo
Depois de uma viagem através de vários fusos, o horário local muda mais rapidamente do que os ritmos do organismo. Esse desalinhamento pode produzir jet lag, com dificuldade para dormir e sonolência quando se espera que a pessoa esteja ativa.
Para o planejamento operacional, a pergunta útil é: em que fase do dia biológico ocorrerão o trabalho e o descanso?
A NASA destaca que, nos voos de longa duração, as transições de fuso, os horários e a duração das estadias e as oportunidades de sono a bordo influenciam a recuperação. A estratégia precisa considerar a sequência completa da viagem.
Como a fadiga aparece na operação
A fadiga pode comprometer atenção, memória, tempo de reação e capacidade de resolver problemas. Lapsos de atenção e microssonos também podem ocorrer.
Aplicando esses efeitos à rotina de voo, podemos compreender a vulnerabilidade de tarefas como acompanhar uma autorização, conferir uma configuração ou perceber uma divergência entre instrumentos. Esses exemplos são implicações operacionais dos mecanismos descritos, e não conclusões sobre uma ocorrência específica.
Pilotos e comissários dependem de atenção e capacidade de resposta. A experiência profissional ajuda a organizar o trabalho, mas o planejamento precisa preservar essas capacidades ao longo da jornada.
Repouso previsto e sono obtido são coisas diferentes
Um intervalo destinado ao repouso oferece uma oportunidade de recuperação. Sua eficácia depende do sono efetivamente obtido.
A NASA identifica quatro fatores importantes: desalinhamento circadiano, perda aguda de sono, restrição crônica de sono e inércia do sono, período de redução do alerta imediatamente após despertar.
Essa última condição merece atenção quando o profissional precisa voltar rapidamente a uma tarefa exigente. Dormir pode ser uma defesa eficaz, mas o retorno à atividade também precisa ser planejado.
Em estudo clássico da NASA, uma oportunidade programada de repouso de 40 minutos resultou em aproximadamente 26 minutos de sono, em média, e melhorou o alerta e o desempenho dos pilotos avaliados. Contudo, não eliminou o débito acumulado de sono.
Esse resultado foi obtido sob procedimentos específicos e não constitui autorização geral para dormir na cabine.
O que precisa entrar na gestão da fadiga?
A análise operacional deve perguntar quanto o tripulante dormiu, há quanto tempo está acordado, em que horário biológico trabalhará e que recuperação terá antes da próxima jornada.
No Brasil, o RBAC 117 trata do gerenciamento do risco de fadiga humana. A IS 117-001, revisão C, de julho de 2026, reúne os conceitos científicos que orientam sua aplicação.
Entre as medidas individuais, estão proteger o ambiente e o horário de sono. A cafeína pode elevar temporariamente o alerta, mas não substitui o sono e pode prejudicá-lo quando consumida perto do repouso. Medicamentos, inclusive melatonina, exigem orientação médica e avaliação no contexto operacional.
Essas medidas precisam acompanhar o planejamento das escalas e a análise dos relatos de fadiga. A gestão deve verificar se a recuperação prevista realmente acontece.
Conclusão
A condição de uma tripulação começa a ser construída antes da apresentação para o voo: nos horários de sono, na sequência das jornadas e nas oportunidades de recuperação.
O relógio biológico precisa fazer parte desse planejamento. Uma escala tecnicamente bem elaborada considera o momento em que o organismo favorece o descanso e os períodos em que sustentar a atenção exige maior cuidado.
Sono suficiente e recuperação efetiva são recursos operacionais. Preservá-los faz parte da preparação de uma tripulação para voar com segurança.
Marcuss Silva Reis
Piloto Comercial de asas fixas, piloto da aviação geral, perito judicial em aviação, economista e técnico em óptica. Pós-graduado em Ciências Aeronáuticas, Segurança da Aviação Civil e Docência do Ensino Superior. Ex-instrutor de escolas de aviação civil, professor universitário.
Instituto do Ar — www.institutodoaraviacao.com.br
Referências
- NIH/NIGMS. Circadian Rhythms.
- FAA. AC 120-100 — Basics of Aviation Fatigue.
- ANAC. IS 117-001, revisão C — Conceitos básicos sobre fadiga humana. 16 de julho de 2026.
- Arsintescu, L. e colaboradores. Early starts and late finishes both reduce alertness and performance among short-haul airline pilots. Journal of Sleep Research, 2022.
- FAA. Circadian Rhythm Disruption and Aviation.
- NASA. Fatigue Countermeasures Laboratory.
- Rosekind, M. R. e colaboradores. Effects of planned cockpit rest on crew performance and alertness in long-haul operations. NASA-TM-108839, 1994.
- ANAC. Resolução nº 750/2024 — Emenda nº 01 ao RBAC 117.


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Marcuss Silva Reis